Verdes – Soneto

Um mar nos olhos teus… Verde esperança;

brilhando a luz do teu interior…

Me contagia a alma, tanto amor,

nas vezes em que, ao meu olhar, se lança!…

 

         Me banho nessas águas que, a rigor,

         me trazem bons momentos à lembrança;

         instantes que o meu recordar te alcança,

         de teu perfume ainda sentindo o olor!…

 

Esverdeados olhos… Marejados…

Por duas esmeraldas adornados

me oferecendo um brilho de emoção…

 

         Hei de guardar-te o lume aqui comigo

         e juro dar, no peito, eterno abrigo

         a este olhar que, ao meu, brilha em paixão!

 


Curadoria: Lourenço Moura


Despoluição

“Respeitosamente” foi o fecho da carta, impressa em papel reciclado, que Pedro assina com capricho ainda que trêmulo, colocando-a logo no envelope. Sai antes da mulher despertar.

Arrasta-se cabisbaixo para a sede da companhia, repensando sua vida de engenheiro de energias, início como estagiário, vitórias, obstáculos, evolução, propósitos…

Uma vez, sua competência o levou a tratar de uma emergência numa das refinarias: ao final, conseguira conter o sério vazamento, contudo toneladas de óleo haviam poluído rios e florestas da região. E a lentidão da firma na despoluição e em esclarecer o incidente à população causou, tanto à empresa como a seus profissionais, imagem suja por muitos anos. Na época, Pedro sofreu severa crise de depressão, longo período de desânimo e solidão.

Meses de terapias e muita paciência da esposa conseguiram recuperar sua saúde psicológica, o orgulho pelo trabalho, a gratidão pelo que a empresa gerava no sustento da sua grande família.

Só que, anos depois, Pedro foi impactado gravemente por uma violenta onda de vergonha que se espalhou pela companhia depois que escândalos éticos e morais vazaram para a mídia, envolvendo o nome da firma e de seus líderes. Esvaíram-se riquezas e reputação. Essa atmosfera corporativa provocou pesada recaída para o engenheiro.

Passada uma década, Pedro sonhava em retomar sua confiança na firma e sua potência profissional. Apesar dos tratamentos e da intensa batalha pessoal, agora só fazia pequenos trabalhos de apoio, ele que já fora tão valioso para o setor energético…

Então nessa manhã, em respeito a si próprio, esperava concretizar a decisão que afastaria toda a poluição que atingira sua alma. Fôlego curto, é o primeiro a chegar à antessala da diretoria. Envelope pardo em punho, ainda consegue ver à distância o vulto do diretor, energicamente conduzido por agentes da Polícia Federal.

 


Curadoria: Lourenço Moura


Foto de Ono Kosuki no Pexels

 

Defina “Homem”

Transferido para o departamento das causas cíveis, foi apresentado à gerente do setor, uma mulher jovem de postura elegante, e solteira. Ele pensou em conhecê-la melhor.

Mas bastaram algumas horas para ver-se frustrado e atormentado, pois não sabia em que momento sua concentração nas análises processuais seria interrompida por aquele gralhar que todos os dias passou a lhe causar desassossego.

No início chegou a dar leves sobressaltos na cadeira. Agora, aprendera a controlar o impulso. Respirava fundo. Visualizava o céu sem nuvens em uma mata onde só se ouvia o farfalhar das árvores embaladas pelo frescor primaveril e repetia mentalmente: tranquilidade.

Perguntava-se como uma voz tão irritante podia pertencer a uma mulher tão bela.

Seus colegas riam, fingiam entreter-se para assegurar a simpatia da chefe. Ela não sabia solicitar auxílio de seus analistas a não ser aos berros:

– Sicrano, eu preciso de um parecer mais incisivo. Fulano, eu quero um café bem amargo. Beltrano, eu necessito de uma petição agora.

A tarde tomava os ares frios da noite de inverno quando o silêncio foi rasgado.

– Eu preciso de um homem.

A solicitação sem nominar alguém ecoou e não provocou risos.

Ele nem respirou, levantou e ficou de frente para a bela gerente.

Ela estava de pé por trás da mesa com as mãos na cintura.

Ele também ficou na posição de Peter Pan e modulando sua voz de locutor de rádio, pediu:

– Defina “homem”!

A gerente franziu os cantos dos olhos, ajeitou o tailleur e sem elevar o tom da voz, piscou maliciosamente e esclareceu:

– Querido, hoje eu só necessito de alguém para carregar aquelas caixas até o arquivo morto — apontou para um amontoado de processos no canto da sala.

Ele suspirou… Abaixou os ombros.

– Ok. Vou chamar um estivador.

 


Curadoria: Lourenço Moura


Foto de Edmond Dantès no Pexels

(DES)VALOR

Nasci, violentamente, em meados do seco e quente mês de agosto. Fui arrancada do ventre de minha mãe e nenhum anjo veio para cantar o “Aleluia.”

Deveria. Só um não! Uma legião. Considerando que meu nascimento quase se tornou uma tragédia. Por muito pouco não morri antes de dar o ar da graça. E de quebra, ainda levaria minha mãe para dar testemunho da desgraça, lá no paraíso.

O parto estava atrasado dois longos dias. Culpa de meu pai que não se adiantou em buscar a parteira. Não me mexia mais. Minha mãe, mais morta do que viva, já não tinha forças para me ajudar a sair. A parteira praticamente me buscou dentro do ventre com as mãos — eu estava sentada. Fui puxada pela perna esquerda que precisou ser deslocada da bacia. Dizem que não foi preciso me bater, eu nasci gritando. Com certeza era de dor.

A parteira não conseguiu encaixar minha perna novamente, uma cresceu mais que a outra. Demorei a andar, não conseguia me sustentar em pé, arrastei-me pelo chão até os quatro anos quando aprendi a andar imitando minha irmã que, com dois anos, já corria para todos os cantos da fazenda.

Eu tinha uma irmã mais velha e outra mais nova e, ainda na prematuridade da infância, minha mãe nos levou embora para a cidade. Saímos escondidas de meu pai que, depois de tomar umas e todas, ficava valente e afoito. Nós, as mulheres da casa, virávamos saco de pancadas. A solução que minha mãe encontrou foi fugir com as filhas.

Na cidade, moramos um tempo com uma prima distante, num quartinho improvisado. Quase não via mamãe, ela trabalhava à noite e, às vezes, durante o dia. Um tempo depois, fomos morar numa casa com um quintal enorme e muitos quartos. Cada quarto tinha um número e em cada  um morava uma mulher. Minha mãe conhecia todas elas.

Da nossa casa para o quintal, havia um muro bem alto com um portão enorme. Só podíamos ir ou brincar no quintal, uma vez na semana, quando todas as mulheres saíam para fazer compras e não recebiam visitas. Nos outros dias, brincávamos na frente da casa ou na pracinha.

Todas as visitas tinham que pedir permissão a minha mãe para entrarem nos quartos e ela anotava em um livro o número do quarto para o qual a visita estava indo. Quase todas as visitas eram homens. Alguns vinham sempre e outros só de vez em quando.

— Que maravilha! Comemorava, minha mãe, todos os dias pela manhã, quando as mulheres vinham lhe pagar o aluguel dos quartos.

Embora ganhasse muito dinheiro, minha mãe sempre reclamava que não era o suficiente para terminar a construção de sua mansão.

Demorei anos para entender, porque minha mãe achou melhor que eu e minhas irmãs fôssemos morar com outras famílias e nunca mais as vi.

Eu fui viver com Dona Leonor. Ela era esperta, mas não conseguiu esconder de mim, que a escutava atrás da porta, que me comprara quando eu tinha cinco anos, por cinco mil reais.

 


Curadoria: Lourenço Moura


Foto  Pixabay

 

 

 

 

A VIDA COMO ELA É

De onde vem a luz do sol? Quem assopra o vento? De onde vem tanta água da chuva? E os relâmpagos e os trovões?  E a noite? E o dia? Como viemos parar aqui?     Esse mundo é cheio de mistérios, dizia em suas indagações Maria Esperança para ela mesma. O nome recebeu da mãe, que imaginava para a filha um futuro melhor. Sentada num banquinho de madeira desgastado pelo tempo, nos finais de tarde em frente à casa dela, naquele fim de mundo onde morava, muitas perguntas atazanavam a mente de Maria Esperança, com respostas que nunca tinha. Lembranças longínquas de sua mãe apareciam em seus pensamentos quando estava divagando em sua solidão.

Vivia só, nunca conheceu o carinho de um homem ou o afago de um filho, viveu árida como a própria terra onde vivia. Seus cabelos brancos e a pele rachada pelo sol da labuta diária, denunciava o seu corpo deteriorado pelo tempo. Com seu cigarro de palha barato que ela mesma fazia, ficava horas a divagar sobre as forças da natureza e os mistérios da vida. Em uma mão, segurava o cigarro de palha e na outra, um galho seco de árvores que pegava do manguezal do quintal, e com ele rabiscava desenhos no chão de terra batida que nem ela sabia o que era.

Fazia isso para passar o tempo e afogar a solidão. “Triste é viver sozinho”, dizia ela, sem ter com quem conversar, dividir uma xícara de café, fazer uns afagos à noite na hora de dormir, compartilhar as tristezas, as alegrias, ou apenas ficar um ao lado do outro, sem dizer nada, sentindo que o outro está por perto. Esses lampejos de felicidade não faziam parte da vida dela.

Maria Esperança divagava com seus pensamentos; ninguém nunca lhe respondera as perguntas que ela fazia para ela mesma; mesmo porque não tinha para quem perguntar, e como ela mesma dizia: ninguém dá ouvidos e atenção para velhos. A idade nem ela sabia, talvez quase cem; tinha uma saúde de ferro, nunca precisou de médicos e nem de remédios. Se sentia algum desconforto, se curava com as ervas que plantava, e se alimentava das aves que criava no quintal de sua humilde casa; não tinha nenhuma doença dessa gente da cidade grande, como ela dizia.

Maria Esperança era uma velha forte, tranquila e corajosa; aceitou a sua condição de viver só, não pela sua própria vontade, mas pelas circunstâncias que a vida impôs a ela. Filha única de mãe pobre, nunca foi à escola. Quando a noite chegava, e as luzinhas brilhantes começavam a surgir no céu, e as muriçocas a perturbar, ela deixava o seu banquinho, calçava o chinelo ruído pelo tempo, desmanchava os rabiscos feitos no chão, apagava o cigarro na parede da casa de barro, coberta de palha, onde vivia, no interior do Brasil, e entrava.

Maria Esperança, que nunca ouviu falar de minimalismo, aplicava em sua vida sem saber, tinha apenas o essencial: fogão à lenha na cozinha, uma sala que servia também de quarto, uma rede, uma lamparina e dois banquinhos velhos de madeira, que poderia ser útil para algum visitante; o banheiro era no quintal ao ar livre, onde tomava banho e fazia suas necessidades.

Ela dizia que o melhor é ter apenas o essencial, a preocupação não entra na cabeça da gente, pois quem tem muita coisa tem que tomar conta delas e não vive sossegado.

— Quando morrer não vou levar nada, não trouxe nada quando nasci e não vou levar nada quando desaparecer desta terra, aqui somos apenas viajantes — dizia ela em sua sabedoria. Mesmo sozinha, sem marido, nem filhos conseguiu construir o único bem que teve: a sua casa. A única coisa que conheceu na vida foi a escassez, as dificuldades e a solidão.

Morreu sem obter respostas de suas indagações, num dia comum de chuva quando arava a terra, com as marcas do tempo diluindo a vida, sonhando com a escola que nunca teve; desapareceu com a terra, levada pela correnteza das lágrimas, quase perto da colheita do arroz e da mandioca, de mulher só lhe restou a alma!

 

 


Curadoria: Lourenço Moura


Imagem de Michal Jarmoluk por Pixabay