Uma obra que transforma a dor do luto em vínculo

Por Mozart Sávio | 14/04/2026

No hiato da dor nos tornamos suportes, de Vinicius Pereira, é um romance sobre duas experiências de luto. Publicado pelo selo Página Nova, o livro aborda temas como maternidade, violência doméstica e Alzheimer para compor uma narrativa em que o luto não funciona como ornamento dramático, mas como uma experiência capaz de reorganizar a rotina, os vínculos e o próprio modo de viver.

Lucy atravessa uma vida marcada por perdas sucessivas e pelo silenciamento. Cresce em um ambiente familiar duro, casa-se com um homem autoritário, passa a cuidar da mãe durante o avanço do Alzheimer e, mais adiante, é lançada à experiência devastadora do desaparecimento do filho. Quando sua dor encontra a de Joana, que perdeu o bebê no fim da gestação, o romance desloca seu eixo: sai do padecimento isolado e alcança o reconhecimento mútuo. São duas mulheres atravessadas por lutos distintos, mas igualmente incontornáveis, que constroem entre si uma relação fundada, sobretudo, na rara possibilidade de serem compreendidas uma pela outra.

O romance também fala de recomeços tardios, da coragem de voltar a estudar, de novas formas de amar, da amizade como amparo e da possibilidade de recuperar algum brilho depois de tanto sofrimento. Lucy e Joana não deixam de carregar seus mortos; aprendem, antes, a seguir com eles, sem desistir inteiramente do mundo.

Com linguagem sensível, imagética e relacional, Vinicius Pereira constrói uma narrativa que alcança leitores interessados em literatura contemporânea, relações familiares, maternidade, luto e saúde emocional. A obra interpela qualquer pessoa que já tenha experimentado a perda de alguém amado, a culpa, o silêncio ou a necessidade de amparo quando a vida deixa de caber em sua forma habitual.

Dados editoriais

  • Título: No hiato da dor nos tornamos suportes
  • Autor: Vinicius Pereira
  • Edição: 1ª edição, 2026
  • Selo/Editora: Página Nova (Toledo–PR)
  • Páginas: 160
  • ISBN: 978-65-85933-78-0
  • Gênero: Romance brasileiro

“Depois dos 70” desafia a ideia de que envelhecer é desaparecer

Por Mozart Sávio | 08/04/2026

Depois dos 70: lições, desafios e novos começos na maturidade, de Ivanete Bastos de Andrade, surge como uma rejeição à visão da velhice associada ao isolamento, à passividade ou ao fim. Publicado pelo selo Página Nova, o livro questiona a imagem tradicional do idoso que apenas aguarda o tempo passar e propõe um novo modo de viver a maturidade com mais lucidez, atividade, consciência e abertura para recomeços.

Ivanete, médica e observadora da experiência humana, constrói sua tese de que o maior risco do envelhecimento está na aceitação dos papéis e estereótipos limitadores. Para ela, envelhecer é uma escolha diária e renovável que vai além das limitações físicas e representa uma nova postura diante da vida.

Ao longo da obra, temas como memória, solidão, vínculos, autonomia e reinvenção ganham forma em uma reflexão que combina experiência pessoal, olhar clínico e desejo de despertar. A imagem das “gavetas” resume com força esse percurso: o passado não aparece como prisão nostálgica, mas como arquivo vivo, capaz de iluminar o presente e reabrir sentidos para o tempo que ainda existe. 

Com linguagem direta, próxima e marcada pela experiência, Depois dos 70 fala a quem já vive essa etapa da vida, mas também alcança filhos, familiares, cuidadores e profissionais da saúde. Ao deslocar o olhar sobre a velhice, o livro questiona a lógica que associa envelhecer ao apagamento e insiste em outra possibilidade: continuar escolhendo, criando, convivendo, aprendendo e pertencendo. 

Em um contexto de longevidade crescente, Ivanete Bastos de Andrade traz ao centro uma pergunta urgente: que lugar a sociedade reserva à maturidade, e que lugar cada pessoa decide ocupar dentro dela? Sem idealizar essa fase nem negar suas dificuldades reais, Depois dos 70 afirma, com clareza, que ainda há tempo para agir, reconstruir vínculos, rever a própria história e dar novo sentido aos dias. Mais do que um livro sobre envelhecer, a obra é uma recusa da passividade e um chamado à permanência em movimento.

Dados editoriais

  • Título: Depois dos 70: lições, desafios e novos começos na maturidade
  • Autor: Ivanete Bastos de Andrade
  • Edição: 1ª edição, 2026
  • Selo/Editora: Página Nova (Toledo–PR)
  • Páginas: 128
  • ISBN: 978-65-85933-77-3
  • Gênero: 1. Bem-estar 2. Envelhecimento – Aspectos psicológicos
  • Link da obra: https://a.co/d/0eK50xWi 

Entre memórias, afetos e a leveza da infância

Por Mozart Sávio

Sopa de Histórias com tempero de poesia, de Maria da Conceição F. da Silva, conduz o leitor a um universo em que o cotidiano se converte em encantamento. A obra organiza-se como um mosaico de experiências familiares, reunindo narrativas breves, poemas e elementos do cordel que dialogam com o imaginário infantil, sem perder a capacidade de sensibilizar leitores de diferentes idades.

Inspirado nas vivências com sobrinhos e nas lembranças da própria infância, o livro apresenta uma escrita marcada pela oralidade, pelo humor e pela musicalidade. Histórias simples, como brincadeiras, travessuras e situações domésticas, adquirem novas camadas por meio da rima e do ritmo. Desse modo, constrói-se uma experiência de leitura que aproxima texto e escuta, palavra e afeto.

A obra se estrutura como uma verdadeira “sopa” narrativa: diversa, dinâmica e multifacetada. Personagens singelos, cenas do cotidiano e figuras do imaginário popular, como o “velho que pega” e o “homem da sacola”, são ressignificados, ora provocando riso, ora suscitando reflexão. Nesse movimento, o medo infantil é suavizado, o erro é reelaborado como aprendizado e a convivência familiar emerge como eixo estruturante das histórias.

Mais do que entreter, o livro propõe uma experiência sensorial e emocional. O texto não se limita à exposição de conteúdos; antes, busca transmitir o espírito da obra, favorecendo a identificação e o envolvimento do leitor. Assim, cada poema e cada narrativa funcionam como convites à memória, seja ela vivida, seja imaginada.

Com linguagem acessível e forte densidade afetiva, Sopa de Histórias com tempero de poesia reafirma a literatura infantojuvenil como espaço de formação sensível. Ao estimular a imaginação e o prazer da leitura, a obra também resgata valores como empatia, respeito e pertencimento, evidenciando que, na simplicidade das histórias, reside uma via potente de compreensão do mundo.

Trata-se, portanto, de um livro que se lê, mas também se escuta, se sente e se compartilha, como toda narrativa que nasce da experiência e retorna à vida.

Dados editoriais

  • Título: Sopa de Histórias com tempero de poesia
  • Autora: Maria da Conceição F. da Silva
  • Edição: 1ª edição, 2026
  • Selo/Editora: Página Nova (Toledo–PR)
  • Páginas: 48
  • ISBN: 978-65-85933-74-2
  • Gênero: poesia, literatura infantojuvenil
  • Link da obra: https://a.co/d/02TnorS0

Entre amores, ironias e destinos improváveis: uma jornada humana em busca da felicidade

Por Mozart Sávio | 10/03/2026

A literatura costuma funcionar como um espelho da vida. Em “A felicidade e os risíveis amores de todos nós”, o escritor J. Emiliano Cruz conduz o leitor por uma coletânea de contos que percorre justamente esse território instável onde convivem desejo, desencontros, acaso e esperança. 

Ao reunir histórias que alternam humor e drama, o autor constrói um retrato sensível das relações humanas. Seus personagens habitam um mundo em que os sentimentos raramente são simples e em que o destino, muitas vezes, parece brincar com as expectativas. Cada narrativa, à sua maneira, revela uma constatação familiar: a vida quase nunca segue o caminho que imaginamos.

Narrar o cotidiano humano

Nos contos, surgem personagens que poderiam viver em qualquer cidade. São homens e mulheres comuns, confrontados por dilemas afetivos, decisões difíceis e encontros capazes de alterar o rumo de suas histórias. Em determinados momentos, esses personagens se deparam com situações que os obrigam a rever a forma como compreendem a si mesmos e o mundo ao redor.

Esse olhar atento para o cotidiano dialoga com uma tradição importante do conto moderno. Em muitas narrativas desse gênero, acontecimentos aparentemente simples desencadeiam mudanças profundas na vida dos personagens. Escritores como Anton Tchekhov exploraram com maestria essa forma de construção narrativa, na qual pequenas experiências do dia a dia revelam transformações interiores. Em outra vertente, Clarice Lispector também mostrou como situações banais podem esconder sentidos inesperados.

Nos contos de Emiliano Cruz, essas revelações costumam surgir envoltas em ironia, coincidências improváveis e episódios que expõem a fragilidade das certezas humanas. Assim, o cotidiano se transforma em um espaço de surpresa, humor e reflexão.

Humor, ironia e reflexão

Um dos pontos mais marcantes do livro está na forma como o autor combina leveza narrativa com temas profundos. As histórias avançam com fluidez e frequentemente apresentam situações bem-humoradas. Ao mesmo tempo, levantam questões universais, como:

  • os desencontros do amor
  • as escolhas que moldam nossas vidas
  • o papel do acaso nos relacionamentos
  • a constante busca pela felicidade

Essa combinação torna a leitura dinâmica. Em certos momentos, o leitor se diverte com as situações vividas pelos personagens. Em outros, é levado a refletir sobre experiências que também fazem parte da vida real.

Uma coletânea sobre a condição humana

Embora cada conto apresente personagens e enredos diferentes, há um tema que atravessa toda a obra: a tentativa humana de compreender o amor e a felicidade em meio às incertezas da vida.

Nos relatos de Emiliano Cruz, os relacionamentos surgem, se transformam ou se desfazem diante de circunstâncias muitas vezes imprevisíveis. Ao acompanhar esses movimentos, o autor revela um olhar atento para as contradições da vida contemporânea, um cenário em que sentimentos intensos convivem com inseguranças, expectativas e decisões que raramente oferecem garantias.

Essa diversidade de histórias também abre espaço para que cada leitor construa sua própria relação com o livro. Em meio às narrativas, é provável que cada pessoa encontre um conto que dialogue de forma particular com sua própria experiência emocional.

Uma leitura que convida à reflexão

Afinal, a felicidade nasce das escolhas que fazemos ou das circunstâncias que a vida nos apresenta? Talvez ela surja justamente do encontro entre decisões pessoais, coincidências inesperadas e os caminhos que se abrem ao longo da existência.

Em “A felicidade e os risíveis amores de todos nós”, J. Emiliano Cruz oferece ao leitor uma obra que observa com atenção as ironias e complexidades das relações humanas. Trata-se de um livro que diverte, provoca reflexão e lembra algo essencial: a busca pela felicidade é uma experiência profundamente humana e, de certa forma, compartilhada por todos nós.

 

Dados editoriais

  • Título: A Felicidade e os risíveis amores de todos nós
  • Autor: J. Emiliano Cruz
  • Edição: 1ª edição, 2026
  • Selo/Editora: Página Nova (Toledo–PR)
  • Páginas: 176
  • ISBN: 978-65-85933-75-9
  • Gênero: literatura brasileira
  • Link da obra: https://a.co/d/0fLuUp3a

Um encontro inesperado – Autora Cida Nunes

Depois do fim de seu casamento, Heloísa não acredita mais no amor. As decepções foram tantas que nem se acha merecedora de encontrar alguém especial. Ao aceitar o convite da amiga Laís para sair e se divertir um pouco, não imagina que aquela noite será definitiva e irá transformar sua vida em todos os sentidos. Mas nem todos torcem por Helô. Ciúmes, desconfianças, intrigas e desencontros a farão tomar decisões difíceis e definitivas para a sua vida e a de quem, agora, também depende dela. Heloísa é uma mulher que aceitou o desafio de viver, e fará de tudo para alcançar esse objetivo, mesmo que tenha que abrir mão de um grande amor.

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Escritor descubra por que você deve ler o livro As Flores do Mal, de Charles Baudelaire.

O livro As Flores do Mal é uma reunião de poemas originalmente divididos em cinco seções. Após sua publicação, o autor, Charles Baudelaire, foi processado por atentado à moral pública e seis dos poemas foram censurados.

Quem foi Charles Baudelaire?

Baudelaire (1821-1867) perdeu o pai aos 6 anos e nunca perdoou a mãe por se casar novamente, dessa vez com um tenente-coronel do exército. Em 1841, foi enviado à Índia pelo padrasto. Mas abandonou o barco e voltou a Paris para se dedicar à literatura. Herdou a fortuna paterna e passou a desfrutar de uma vida de luxo. Após uma temporada na Bélgica, retornou a Paris, onde morreu nos braços da mãe.

Por que As Flores do Mal mudou a humanidade?

Poeta das sensações, do satanismo, da sensualidade e sinestesia (a mistura dos sentidos, por exemplo, a cor de um perfume), Baudelaire escreveu durante a decadência do Romantismo e a ascensão do Realismo. Sua poesia percorreu um caminho singular, prenunciando os temas que dominariam o século XX. Segundo o crítico Erich Auerbach, ele criou a poesia moderna ao incorporar a realidade grotesca à literatura. O escritor André Breton considerava Baudelaire o primeiro dos surrealistas.

Qual era o contexto histórico da época?

Na década de 1820, o contexto histórico era o seguinte:

– Início da Revolução Industrial;

– Uso de ferro na construção civil;

– Desenvolvimento da moda e da indústria têxtil;

– Desenvolvimento do transporte;

– Renovação da cidade de Paris por meio do planejamento de Georges-Eugène Haussmann.

Baudelaire capturou literariamente uma época de transformações estéticas e de costumes que marcaram a segunda metade do século XIX. Em seus textos, ele abordava a:

– Dualidade pela ligação das qualidades abstratas com objetos concretos em torno do poeta;

– Projeção da visão interior sobre o mundo exterior;

– Conexão da mente com os sentidos: sinestesia;

– Inexistência da espiritualidade;

– Mente como chave para o poema e sentidos como forma de preenchê-los.

Os traços mais característicos da poesia de Baudelaire são degradação, perplexidade ante o moderno, provocação e beleza.

A degradação e a provocação revelam o estado de ânimo desse escritor, geralmente o tédio, que o fazia refletir acerca de seu tempo, mantendo-se no lugar do inadaptado social.

A beleza se inicia na degradação: o feio e o cômico, levados ao limite, são belos. A beleza, em Baudelaire, não combina com a normalidade, está no limite. O eu lírico está preso em um mundo com o qual não consegue se identificar, e prevalece nele sentimento de derrota, obscuro, sinistro.

Em qual poema é possível ver essas características?

Essas características, evidentemente, podem ser identificadas em diversos poemas de Baudelaire, mas o Poema ao Leitor as ilustra muito bem:

“Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada

Não bordaram ainda com desenhos finos

A trama vã de nossos míseros destinos,

É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.

Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,

Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,

Aos monstros ululantes e às viscosas feras,

No lodaçal de nossos vícios imortais,

Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo!

Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,

Da Terra, por prazer, faria um só detrito

E num bocejo imenso engoliria o mundo;

É o Tédio! – O olhar esquivo à mínima emoção,

Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.

Tu conheces, leitor, o monstro delicado

– Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!”

(Tradução de Ivan Junqueira)

Em suma, ler As Flores do Mal, de Charles Baudelaire, é importante para compreender o pensamento vigente no século XX e entender como era o sentimento da humanidade no período, de modo a compreender como isso se relaciona com o momento da sociedade atual.

Boa leitura!

Entrevista de lançamento de Uma luz que escurece: Vidas anônimas de Akio Kimura

Akio Kimura nasceu na cidade de Bilac na data de 11 de novembro de 1947, interior de São Paulo. Assim como a maioria dos imigrantes japoneses, acompanhou os seus pais que escolheram a capital de São Paulo em busca de uma vida próspera. Após muitos anos, ainda mora na cidade. A sua educação baseou-se principalmente em escolas estaduais e federais. Cursou faculdade de Comunicação-Polivalente na área de cinema da FAAP, na década de 1970, no período noturno. A sua profissão de tipógrafo sustentou as mensalidades durante quatro anos. Trabalhou também como motoboy, fotógrafo de casamento e laboratorista de filmes preto e branco e em cores. No início da década de 1990, foi decasségui durante seis anos no Japão. Dedicou-se totalmente ao trabalho operário em uma empresa fabricante de para-choque, carcaças de ar-condicionado e afins. Atualmente, está aposentado e trabalha num escritório de despachos aduaneiros. Tem três livros publicados: Paxá, o aposentado ativo, Inesperada reunião na metrópole e Memórias de uma decasségui.

O início da escrita:

• Quando criança já se imaginava escritor ou isso surgiu mais tarde?

R: Surgiu mais tarde. O meu primeiro contato com um livro de ficção foi através de um vizinho de infância, Ricardo. Ele me presenteou com o livro Tarzan, de Edgar R. Burroughs, mas nesse período eu estava numa fase de descoberta, por isso tive dificuldade em entender a história. No final do curso primário lia livros de bolso, FBI e histórias de cowboy às pencas. Mas ainda com dificuldades. Passava eu ainda na fase de adaptação da língua japonesa para o português. Um dia escrevi num caderno uma historinha: Zorro Duplo. Porém, não passaram de duas linhas: “Era uma vez em Oregon, o Zorro duplo prendeu uma dupla de assaltantes de diligências numa estrada de terra.” FIM.

R: Eu entendia bem quando a história tinha cenas de ação. Até hoje não descobri o dono daqueles livros que apareceram em casa, pois morava com os meus pais que trabalhavam na lavanderia do meu tio. Talvez, os livros pertencessem ao passador de roupas, um evangélico que lia muito a Bíblia; ou ao meu amigo entregador de roupas. Quase um mistério. Talvez algum vizinho, aquele do livro do Tarzan, o Ricardo, que mudou de residência para um bairro distante sem me avisar.

• De onde veio o gosto pela escrita?

R: Eu era leitor assíduo de muitos Gibis: Zorro e Tonto, Don Chicote, Flecha Ligeira, Durango Kid, Fantasma etc. Amava Pato Donald e os seus três sobrinhos, Pateta e Pernalonga e Tom e Jerry na televisão. Foi fundamental ter lido essas histórias em quadrinhos. 

• Quando começou a escrever?

R: Talvez no Ginásio e Colegial, quando os livros clássicos eram de leitura obrigatória: José de Alencar, Graciliano Ramos, Castro Alves, Cruz e Souza, Machado de Assis e outros clássicos. Pensei em escrever quando ganhei nota máxima com uma redação, pela primeira e a última vez. Mas na outra prova, nota mínima: interpretação de texto. Meu fraco, “0 a 0”.

R: Escrevia pequenas histórias e guardava numa pasta, até chegar no momento adequado. Como a vida de fotógrafo não prosperava, em 1990 aventurei-me a trabalhar no Japão. Permaneci seis anos dedicado ao trabalho. Não escrevia nada, e nem lia. Nas horas vagas, apenas brincava de compor letras em português para incorporar na música japonesa. É claro, fazia turismo para conhecer o país dos meus pais, de acordo com o orçamento doméstico. Uma experiência inacreditável. Em 1996, retornei ao Brasil com uma esposa grávida e uma filha de quatro anos. Por pura sorte, iniciei o trabalho de escritório na firma em que a minha irmã havia montado. Aprendemos Word e Excel apenas para utilizar lá. Nessa época, surgiu a maravilhosa internet. Fascinado, iniciei um blog para armazenar mais histórias. Percebi que o momento havia chegado. Foi em 2014 que realmente comecei a escrever. Dava voltas na praça pensando em criar situações em cima dos rascunhos que havia guardado. Não tinha noção de como publicar um livro. Procurei na internet e encontrei uma escola de escrita. Logo em seguida houve uma tragédia: a servidora apagou o blog porque o período gratuito havia expirado. A recuperação dos textos durou alguns meses. Graças! São desses rascunhos que nascem as histórias, seguindo as fases de uma borboleta.

Este livro:

• De onde surgiu a ideia para este livro? 

R: Havia escrito muitas histórias no blog. Em plena pandemia, escrevi Almas Cibernéticas, que ainda está em estado de conclusão e Memórias de uma Decasségui, já editado. E, depois, escolhi sete rascunhos com título de Vidas Anônimas, cada história com características únicas. Mas houve mudanças radicais nos textos, totalmente diferentes dos rascunhos que havia escrito. Minha história preferida é Uma Luz que Escurece, o que me levou a substituir o título “Vidas Anônimas”, por sugestão de um colaborador. Havia ainda um conto-documentário sobre moradias baratas para população de baixa renda, com diálogos entre dois amigos. Estava a fim de incluir num futuro livro. Porém, um dia assisti uma reportagem de um homem que ficou preso quase 20 anos injustamente e ganhou a liberdade com direito a indenização do Estado, mas demorou tanto que, nesse meio-tempo, ele faleceu. Decidi então aproveitar os diálogos do conto-documentário e mudar o rumo da história, contando sobre a injustiça. O que o meu personagem faria no lugar dele, se ele não tivesse morrido?

• O que o leitor pode esperar deste livro? 

R: São sete histórias curtas. No meu entender, algumas histórias são belas, e outras, violentas e densas. É um livro fácil de ler.

• O que o lançamento do livro significou para você?

R: Satisfação! Sinto-me orgulhoso. Até parece que é mais um filho meu que nasceu, com a colaboração da editora que fez o parto. 

• Como pretende conduzir sua carreira de escritor? Tem mais livros a caminho?

R: Até quando tiver trabalho e saúde. Escrever é a minha diversão e a minha razão de viver. O meu sentido de vida. 

R: Tenho dois. Um deles é Almas Cibernéticas, quase em fase final. O outro comecei em 2017, mas um dia terminarei. 

Obrigado por essa oportunidade.

Akio Kimura

São Paulo, 14 de janeiro de 2023.

Mamma Mia! A banda ABBA anuncia o retorno em 2022 destacando o trabalho jornalístico de Daniel Couri

 O primeiro livro publicado pela editora Página Nova é o trabalho do jornalista Daniel Couri Made in Suécia: O paraíso pop do ABBA que coincide com o retorno da banda em 2022

Após o imenso sucesso da banda ABBA, eles retornam depois de 40 anos para o lançamento de um novo álbum. Esse retorno coincide com o trabalho de dez anos de pesquisa do jornalista Daniel Couri expresso no livro Made in Suécia: O paraíso pop do ABBA, publicado pela editora Página Nova no ano de 2008. O livro nos mostra que a trajetória do grupo nasceu do sonho de dois casais suecos que decidiram reunir os talentos e romper as barreiras restritas à música pop da época.

O livro reportagem sobre a banda exigiu uma extensa pesquisa sobre o grupo, porém a admiração do autor veio da adolescência quando ele percebeu que a mídia brasileira, nos anos 90, não fazia jus ao sucesso do grupo, levando-o a se interessar cada vez mais pela cultura da Suécia, pelo processo de composição das músicas, bem como pela riqueza artística da banda.

Em seu trabalho, Daniel nos mostra que o ABBA vendeu mais de 350 milhões de discos e esse número cresce até 3 milhões por ano, embora a banda tenha terminado em 1982. O mesmo sucesso teve o espetáculo musical Mamma Mia, que é baseado nas canções do grupo. Desde a estreia em Londres, em 1999, arrecadou mais de 1 bilhão de dólares e é hoje a produção com mais versões em cartaz pelo mundo. O mesmo sucesso obteve a versão para o cinema, estrelada por Meryl Streep em 2008.

Nos anos 90 teve início um revival do ABBA que parece não ter data para terminar. Houve lançamento de diversas coletâneas, vendas abundantes e uma série de homenagens. Bono Vox, Madonna, Kurt Cobain, todos admitiram seu amor pela banda.

A publicação do livro sobre o ABBA em português é algo inédito. Além disso, este livro tem como principal objetivo contar para o público brasileiro a história do grupo falando de aspectos da natureza dos suecos e do showbiz em geral. Ele faz links com outros artistas e com a cena musical da década de 70 até os dias de hoje, além de explicar o motivo pelo qual a banda permanece tão pouco compreendida pelo público brasileiro, apesar de fazer tanto sucesso ao redor do mundo. Uma leitura extremamente necessária e atual, em especial, para os amantes de música e da cultura pop.

Sobre o autor

Daniel Couri é formado em Comunicação Social pelo Centro Universitário de Brasília (UNICEUB nos anos de 2000 — 2006). Trabalhou por mais de um ano no Correio Braziliense e atualmente é roteirista na TV Escola.

 Publicou o seu primeiro livro pela editora Página Nova, com o título: Made in Suécia: O paraíso pop do ABBA, no ano de 2008 em português o qual exigiu uma pesquisa profunda sobre a banda, com a proposta de contar para o público brasileiro a história do grupo, falando de aspectos da natureza dos suecos e do showbiz em geral. Por isso, ele faz links com outros artistas e com a cena musical da década de 70 até os dias de hoje, além de explicar o motivo pelo qual a banda permanece tão pouco compreendida pelo público brasileiro, apesar de fazer tanto sucesso mundo afora.

A PORTA

Ela estava ali, a enfrentá-lo num embate épico entre suas lembranças e seu presente. Ele ficou estacado e imóvel, inerte perante as emoções e os pensamentos. Queria ficar do lado de fora, seguro e sozinho. Lá dentro, as luzes pareciam dançar alegres ao movimento das pessoas que andavam alheias à sua presença de um lado ao outro. Precisaria de um esforço sobre-humano para poder bater na madeira. Adornada por uma bela guirlanda, a porta parecia agora que lhe sorria escancaradamente, talvez zombando de sua covarde indecisão.

Há quantos anos não pisava naqueles degraus?  A rua mudara de ares. Já não era a mesma de décadas atrás. A porta, porém, impávida, era a mesma que por infindáveis vezes se abriu e fechou por detrás de si. Sabia que ao atravessá-la, teria um encontro com suas lembranças. Isso o perturbava. Por fim, colocou as malas no chão e arrojou os punhos em direção àquela muralha. Foram três toques opacos e secos.

Em segundos, ouviu passos que se aproximavam, então aquele portal se abriu: dois olhos azuis e desgastados pelo tempo contemplaram os dele. Por alguns segundos pareciam não acreditar, mas foram se enchendo de lágrimas saudosas e felizes. Um grande abraço silencioso e materno o acolheu ali mesmo. Enfim, estava de volta.

 

 


Curadoria: Lourenço Moura


Imagem de Hans Benn por Pixabay 

Birra

Veio o fotógrafo “tirar o retrato”, evento, na época, com hora marcada. A criaturinha, um ano de idade, quando viu a “máquina de tirar retrato” encantou-se e a queria para si. Desejo negado, jogou-se no chão aos berros. Negociação:
Deram uma caneta para a dama. Hoje ela aparece, no “retrato” preto e branco, segurando a prenda.
Numa outra ocasião, a princesa, levada à feira na cidade, viu uma banca de laranjas e queria saborear a fruta no momento. Impossível deixar a menina se lambuzar toda no vestido especial. Imagine a cena! No meio da feira, com a menina expressando seu desapontamento com choros e esperneios!
Depois de tantas que a garota aprontou, porque ainda foram muitas mais, nem lhe deram atenção quando ela gritou e esperneou exigindo justiça em um novo caso. O irmão raspara o olho da boneca nova e a menina engoliu o choro da frustração e perda de causa. Estava domada.

 


Curadoria: Lourenço Moura


Foto de Emma Bauso no Pexels