Naquele dia, eu não precisaria cozinhar. Iríamos jantar fora.
Busquei uma roupa e arrumei os cabelos.
Supostamente atrasada, saí do quarto. Ao me ver, ele se virou em direção à porta, resmungando. Da sua boca não saiu uma palavra inteira, só interjeições. Nunca fora de falar muito.
No restaurante, ele fez o pedido, comeu, palitou os dentes como de costume e, depois de massagear a barriga estufada, verbalizou:
— Enfim, comida de verdade!
Disse-o com todas as palavras completas, com pausas e usando a exclamação. Entraram em mim, entristecendo cada músculo da minha face, derrubando meus ombros e, por fim, ficaram presas em algum lugar dentro da minha cabeça.
Depois desse jantar, a cada refeição que lhe servia, eu baixava os olhos e lembrava aquelas palavras presas em mim enquanto ele se satisfazia em silêncio. Por vezes soltava uma interjeição que não dava para entender. E eu, bem, eu… Não importava.
Curadoria: Lourenço Moura