Menino no ônibus

O garoto estava sentado dois bancos na minha frente com uma mulher ao lado que julguei ser sua mãe. Ele estava claramente animado com o “city tour”.

— Que legal! Depois daqui quero ir ao aquário! Olha, um parque de diversões! Vamos pra lá, mãe?

Ao contrário do garoto, a mãe não parecia animada, em vez disso, bem abatida. Aliás, reparei que suas bochechas estavam molhadas. Não era suor, estava um dia frio. Ela chorava. Sim, dava para ver que eram lágrimas escorrendo. O menino, claro, alheio à dor da mãe, continuava falando.

Em algum momento — nem eu sei bem há quanto tempo eu estava observando mãe e filho — a mulher percebeu meu olhar e rapidamente tentou disfarçar o choro, esboçando um sorriso sofrido e baixando a cabeça para limpar o rosto com um dos braços. Tive vontade de estender-lhe minha mão. Oferecer ajuda. Perguntar qual era o problema. No mínimo ser alguém que a ouvisse.

O menino continuava focado no mundo lá fora. Enquanto o ônibus percorria as ruas da cidade o garoto apontava para as construções e para as pessoas que via pela janela. E comentava e falava e ria e prometia muito. Sempre com um sorriso no rosto. A mãe agora forçava um sorriso. Parecia tentar mostrar-se forte e imaculada aos olhos do filho. Estava fazendo um ótimo trabalho, pois o garoto continuava animado.

Peguei rapidamente minha câmera e esperei até que o menino olhasse para mim. Fotografei. Então “caiu-me a ficha”, lembrei-me que minha mãe estava comigo. Fotografei o garoto alheio aos problemas de sua mãe, sem perceber que ele me retratava alheio ao choro da minha mãe sentada ao meu lado.


Curadoria: Lourenço Moura


Foto de Jakob Scholz no Pexels