Alfazema

Numa escolha que demorou a ser feita, Virgínia Heitor assassinou aquele homem numa encruzilhada. Com a premeditação de uma profissional, programou o convite que lhe faria para ir a um lugar ermo, a respectiva desculpa para o evento, a forma correta do assassinato e o método de disposição do corpo. Fê-lo, já se disse, com a correção a que se exigiu, e foi-se embora, ciente da imensa improbabilidade de alguma vez ser acusada.

No dia seguinte, só depois de instalado o alívio que prometera a si mesma pelo desaparecimento do homem, pois isto dos grandes eventos sempre nos traz um quê de dúvida sobre a sua realidade, Virgínia Heitor fechou os olhos dentro da casa silenciosa e relembrou o momento em que o corpo, esvaído em sangue, parara de se mexer. Ali estava ela, testemunha do início da sua eterna quietude, e não sentiu nada. Estranhou.

Pegou no caderno onde escrevinhava as listas de supermercado e escreveu umas quadras, ― Ai que a alma se fora dela agora que matara! Perdera a humanidade assim tão nova! Viveria na bruma do homicídio daí para a frente! Quão mal se sentia… Tão enorme pecado!

Não, não era verdade. A tentativa de se humanizar com a poesia fora mal sucedida. Era noite, Virgínia Heitor escolheu o shampoo de alfazema, tomou um relaxante banho de água morna e dormiu relaxadamente por oito horas.