Antologia EntreCapas – Literatura Policial

O canal Café do Escritor, através do seu selo EntreCapas, lança a convocatória para o segundo volume da série ANTOLOGIA EmContos – LITERATURA POLICIAL.

O TEMA

Esta antologia reunirá contos – narrativas ficcionais curtas – de Literatura Policial que se enquadrem na seguinte ideia-título do livro: “O crime (quase sempre) não compensa”.

O LIVRO

O livro terá como título: “O crime (quase sempre) não compensa”. O formato deste livro de contos será 16cm x 23cm, com aproximadamente 190 (cento e noventa) páginas. Cada autor terá 9 (dez) páginas – 8 (nove) páginas de texto e 1 (uma) página para foto de divulgação e biografia.

OS TEXTOS

A antologia será formada pelos trabalhos de 20 (vinte) autores avaliados e selecionados pela curadoria. A curadora será a escritora Carina Luft, autora de duas obras centrais da recente Literatura Policial brasileira: “Fetiche” (Porto Alegre: Dublinense, 2010) e “Verme” (Porto Alegre: Dublinense, 2014) e apontada como uma das cem mais importantes autoras de Literatura Policial do mundo. Auxiliará na tarefa de seleção dos textos o escritor Robertson Frizero, com reconhecida experiência no ensino de Criação Literária e jurado da categoria Contos no Prêmio Jabuti 2018.
Os textos deverão ser contos (prosa literária) inéditos e cada participante poderá utilizar o espaço disponível por autor para um ou mais contos. Há pelo menos duas formas de calcular a extensão desse espaço: cerca de 2500 palavras; ou 15.000 caracteres em formato A4 [Word ou similar], Fonte Times New Roman 11, espaço simples.

O PRAZO

O prazo para envio dos textos é 01/08/2021 e a previsão de lançamento é outubro de 2021. Os interessados devem enviar seus contos para análise e aprovação, bem como uma breve biografia, para o editor e organizador Sandro J. Bier no endereço eletrônico: cafe@bkpcafe.lemund.com.br.

A PARTICIPAÇÃO

Uma vez selecionado e recebido o convite para participar desta antologia, o autor assinará uma autorização para publicação e um termo de adesão no qual se compromete a adquirir 10 (dez) exemplares da obra pelo custo unitário acrescido do valor de frete módico a ser calculado de acordo com a quantidade de livros solicitada. Esse valor pode ser parcelado junto à editora em até duas vezes.
A impressão do livro será bancada, majoritariamente, por uma campanha de crowdfunding organizada pela editora.

CROWDFUNDING

Os valores para viabilização serão arrecadados em uma campanha de crowdfunding, na qual serão oferecidas recompensas para que os livros sejam adquiridos em pré-venda.
Caso o montante necessário para a viabilização do projeto não seja atingida, o projeto não será realizado.

CAFÉ

Depois que aquela mancha, (aquela sombra, na verdade) me tocou, nunca mais fui o mesmo. Nunca mais tive controle total sobre minhas ações, o que cooperou para uma má relação com meus pais.

Terminamos de jantar e papai já estava com a cara enfiada nos tabloides, era o único que ainda não havia deixado a mesa. O jornal o escondia, deixando à mostra os dedos das mãos que o seguravam pelas bordas. Mamãe, depois de coar todo o café, o serviu em xícaras sem alça (exatamente aquelas que comprara no Líbano quando viajamos no último verão) e depositou-as no tampo da mesa de cedro. Papai baixou o jornal no mesmo instante e foi sentir aquele aroma delicioso.

— Eu amo café — disse ele após inspirar profundamente. — Mas como o cheiro consegue ser melhor que o gosto?

— É verdade. — Mamãe sorriu. Depois voltou à cozinha para pegar o açucareiro.

Papai não resistiu à travessura de bater com o cigarro na borda da xícara, fazendo-a de cinzeiro para jogar um pouco da cinza dentro. Quando mamãe retornou, ele adicionou uma colher do mascavo e misturou tudo. Afinal, quem nunca? Eu mesmo faço isso até hoje. Mas toda vez que minha mãe o pegava fazendo, ela o repreendia.

— Sempre se empolgava enquanto eu preparava o café — disse ela para mim —, agora não gosta mais?

— Não quero — eu disse, com algo gritando dentro de mim para ser ríspido, mas eu consegui controlar desta vez. Sem ainda olhar para ela, agradeci. — Obrigado.

Permaneci de cócoras. Continuei a brincar com meus Legos. Sem precisar me virar, já sabia que mamãe estava à beira do choro e papai a consolá-la. Ouvi o arrastar de cadeira e passos em direção à cozinha, depois o barulho de louça sendo deixada na pia. Mamãe havia abandonado seu café e subiu para seu quarto.

— Rian? — meu pai me chamou. Continuei agachado, apenas virei o pescoço para olhá-lo. — Sua mãe ficou triste.

— Mas… a tratei mal?

— Claro que não — afirmou ele. — Se o fizesse, teria sido esbofeteado, sabe disso. — Papai sabia ser ignorante, o que me fez odiá-lo por muito tempo. — Mas o problema é o descaso com tudo que ela faz por você.

— Desculpe — limitei a dizer. E voltei a empilhar os brinquedos. Senti meu pai decepcionado, esperando muito mais que uma desculpa em tom displicente. Ele voltou ao que estava fazendo. Após um tempo, me levantei, fui até a mesa, passei a mão por cima da xícara ilustrada, e uma gota de sombra saiu da ponta de meus dedos e mergulhou, sem barulho algum e unificando-se ao café.

Escutei a chuva lá fora e fui à janela para admirá-la. Amávamos quando chovia, principalmente no inverno quando arrefece mais.

Meu pai se agradou da chuva e tomou um gole do seu café. Continuei a apreciar o tempo lá fora enquanto os olhos de meu pai escureciam como duas azeitonas pretas. Como se estivesse hipnotizado, ele subiu as escadas. Não demorou muito para que os gritos da minha mãe se misturassem aos trovões lá fora.

 


Curadoria: Lourenço Moura


Foto de samer daboul no Pexels