Depois do fim de seu casamento, Heloísa não acredita mais no amor. As decepções foram tantas que nem se acha merecedora de encontrar alguém especial. Ao aceitar o convite da amiga Laís para sair e se divertir um pouco, não imagina que aquela noite será definitiva e irá transformar sua vida em todos os sentidos. Mas nem todos torcem por Helô. Ciúmes, desconfianças, intrigas e desencontros a farão tomar decisões difíceis e definitivas para a sua vida e a de quem, agora, também depende dela. Heloísa é uma mulher que aceitou o desafio de viver, e fará de tudo para alcançar esse objetivo, mesmo que tenha que abrir mão de um grande amor.
Escritor descubra por que você deve ler o livro As Flores do Mal, de Charles Baudelaire.
O livro As Flores do Mal é uma reunião de poemas originalmente divididos em cinco seções. Após sua publicação, o autor, Charles Baudelaire, foi processado por atentado à moral pública e seis dos poemas foram censurados.
Quem foi Charles Baudelaire?
Baudelaire (1821-1867) perdeu o pai aos 6 anos e nunca perdoou a mãe por se casar novamente, dessa vez com um tenente-coronel do exército. Em 1841, foi enviado à Índia pelo padrasto. Mas abandonou o barco e voltou a Paris para se dedicar à literatura. Herdou a fortuna paterna e passou a desfrutar de uma vida de luxo. Após uma temporada na Bélgica, retornou a Paris, onde morreu nos braços da mãe.
Por que As Flores do Mal mudou a humanidade?
Poeta das sensações, do satanismo, da sensualidade e sinestesia (a mistura dos sentidos, por exemplo, a cor de um perfume), Baudelaire escreveu durante a decadência do Romantismo e a ascensão do Realismo. Sua poesia percorreu um caminho singular, prenunciando os temas que dominariam o século XX. Segundo o crítico Erich Auerbach, ele criou a poesia moderna ao incorporar a realidade grotesca à literatura. O escritor André Breton considerava Baudelaire o primeiro dos surrealistas.
Qual era o contexto histórico da época?
Na década de 1820, o contexto histórico era o seguinte:
– Início da Revolução Industrial;
– Uso de ferro na construção civil;
– Desenvolvimento da moda e da indústria têxtil;
– Desenvolvimento do transporte;
– Renovação da cidade de Paris por meio do planejamento de Georges-Eugène Haussmann.
Baudelaire capturou literariamente uma época de transformações estéticas e de costumes que marcaram a segunda metade do século XIX. Em seus textos, ele abordava a:
– Dualidade pela ligação das qualidades abstratas com objetos concretos em torno do poeta;
– Projeção da visão interior sobre o mundo exterior;
– Conexão da mente com os sentidos: sinestesia;
– Inexistência da espiritualidade;
– Mente como chave para o poema e sentidos como forma de preenchê-los.
Os traços mais característicos da poesia de Baudelaire são degradação, perplexidade ante o moderno, provocação e beleza.
A degradação e a provocação revelam o estado de ânimo desse escritor, geralmente o tédio, que o fazia refletir acerca de seu tempo, mantendo-se no lugar do inadaptado social.
A beleza se inicia na degradação: o feio e o cômico, levados ao limite, são belos. A beleza, em Baudelaire, não combina com a normalidade, está no limite. O eu lírico está preso em um mundo com o qual não consegue se identificar, e prevalece nele sentimento de derrota, obscuro, sinistro.
Em qual poema é possível ver essas características?
Essas características, evidentemente, podem ser identificadas em diversos poemas de Baudelaire, mas o Poema ao Leitor as ilustra muito bem:
“Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos,
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.
Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vícios imortais,
Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo!
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;
É o Tédio! – O olhar esquivo à mínima emoção,
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu conheces, leitor, o monstro delicado
– Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!”
(Tradução de Ivan Junqueira)
Em suma, ler As Flores do Mal, de Charles Baudelaire, é importante para compreender o pensamento vigente no século XX e entender como era o sentimento da humanidade no período, de modo a compreender como isso se relaciona com o momento da sociedade atual.
Boa leitura!
Entrevista de lançamento de Uma luz que escurece: Vidas anônimas de Akio Kimura

Akio Kimura nasceu na cidade de Bilac na data de 11 de novembro de 1947, interior de São Paulo. Assim como a maioria dos imigrantes japoneses, acompanhou os seus pais que escolheram a capital de São Paulo em busca de uma vida próspera. Após muitos anos, ainda mora na cidade. A sua educação baseou-se principalmente em escolas estaduais e federais. Cursou faculdade de Comunicação-Polivalente na área de cinema da FAAP, na década de 1970, no período noturno. A sua profissão de tipógrafo sustentou as mensalidades durante quatro anos. Trabalhou também como motoboy, fotógrafo de casamento e laboratorista de filmes preto e branco e em cores. No início da década de 1990, foi decasségui durante seis anos no Japão. Dedicou-se totalmente ao trabalho operário em uma empresa fabricante de para-choque, carcaças de ar-condicionado e afins. Atualmente, está aposentado e trabalha num escritório de despachos aduaneiros. Tem três livros publicados: Paxá, o aposentado ativo, Inesperada reunião na metrópole e Memórias de uma decasségui.

O início da escrita:
• Quando criança já se imaginava escritor ou isso surgiu mais tarde?
R: Surgiu mais tarde. O meu primeiro contato com um livro de ficção foi através de um vizinho de infância, Ricardo. Ele me presenteou com o livro Tarzan, de Edgar R. Burroughs, mas nesse período eu estava numa fase de descoberta, por isso tive dificuldade em entender a história. No final do curso primário lia livros de bolso, FBI e histórias de cowboy às pencas. Mas ainda com dificuldades. Passava eu ainda na fase de adaptação da língua japonesa para o português. Um dia escrevi num caderno uma historinha: Zorro Duplo. Porém, não passaram de duas linhas: “Era uma vez em Oregon, o Zorro duplo prendeu uma dupla de assaltantes de diligências numa estrada de terra.” FIM.
R: Eu entendia bem quando a história tinha cenas de ação. Até hoje não descobri o dono daqueles livros que apareceram em casa, pois morava com os meus pais que trabalhavam na lavanderia do meu tio. Talvez, os livros pertencessem ao passador de roupas, um evangélico que lia muito a Bíblia; ou ao meu amigo entregador de roupas. Quase um mistério. Talvez algum vizinho, aquele do livro do Tarzan, o Ricardo, que mudou de residência para um bairro distante sem me avisar.
• De onde veio o gosto pela escrita?
R: Eu era leitor assíduo de muitos Gibis: Zorro e Tonto, Don Chicote, Flecha Ligeira, Durango Kid, Fantasma etc. Amava Pato Donald e os seus três sobrinhos, Pateta e Pernalonga e Tom e Jerry na televisão. Foi fundamental ter lido essas histórias em quadrinhos.
• Quando começou a escrever?
R: Talvez no Ginásio e Colegial, quando os livros clássicos eram de leitura obrigatória: José de Alencar, Graciliano Ramos, Castro Alves, Cruz e Souza, Machado de Assis e outros clássicos. Pensei em escrever quando ganhei nota máxima com uma redação, pela primeira e a última vez. Mas na outra prova, nota mínima: interpretação de texto. Meu fraco, “0 a 0”.
R: Escrevia pequenas histórias e guardava numa pasta, até chegar no momento adequado. Como a vida de fotógrafo não prosperava, em 1990 aventurei-me a trabalhar no Japão. Permaneci seis anos dedicado ao trabalho. Não escrevia nada, e nem lia. Nas horas vagas, apenas brincava de compor letras em português para incorporar na música japonesa. É claro, fazia turismo para conhecer o país dos meus pais, de acordo com o orçamento doméstico. Uma experiência inacreditável. Em 1996, retornei ao Brasil com uma esposa grávida e uma filha de quatro anos. Por pura sorte, iniciei o trabalho de escritório na firma em que a minha irmã havia montado. Aprendemos Word e Excel apenas para utilizar lá. Nessa época, surgiu a maravilhosa internet. Fascinado, iniciei um blog para armazenar mais histórias. Percebi que o momento havia chegado. Foi em 2014 que realmente comecei a escrever. Dava voltas na praça pensando em criar situações em cima dos rascunhos que havia guardado. Não tinha noção de como publicar um livro. Procurei na internet e encontrei uma escola de escrita. Logo em seguida houve uma tragédia: a servidora apagou o blog porque o período gratuito havia expirado. A recuperação dos textos durou alguns meses. Graças! São desses rascunhos que nascem as histórias, seguindo as fases de uma borboleta.

Este livro:
• De onde surgiu a ideia para este livro?
R: Havia escrito muitas histórias no blog. Em plena pandemia, escrevi Almas Cibernéticas, que ainda está em estado de conclusão e Memórias de uma Decasségui, já editado. E, depois, escolhi sete rascunhos com título de Vidas Anônimas, cada história com características únicas. Mas houve mudanças radicais nos textos, totalmente diferentes dos rascunhos que havia escrito. Minha história preferida é Uma Luz que Escurece, o que me levou a substituir o título “Vidas Anônimas”, por sugestão de um colaborador. Havia ainda um conto-documentário sobre moradias baratas para população de baixa renda, com diálogos entre dois amigos. Estava a fim de incluir num futuro livro. Porém, um dia assisti uma reportagem de um homem que ficou preso quase 20 anos injustamente e ganhou a liberdade com direito a indenização do Estado, mas demorou tanto que, nesse meio-tempo, ele faleceu. Decidi então aproveitar os diálogos do conto-documentário e mudar o rumo da história, contando sobre a injustiça. O que o meu personagem faria no lugar dele, se ele não tivesse morrido?
• O que o leitor pode esperar deste livro?
R: São sete histórias curtas. No meu entender, algumas histórias são belas, e outras, violentas e densas. É um livro fácil de ler.
• O que o lançamento do livro significou para você?
R: Satisfação! Sinto-me orgulhoso. Até parece que é mais um filho meu que nasceu, com a colaboração da editora que fez o parto.
• Como pretende conduzir sua carreira de escritor? Tem mais livros a caminho?
R: Até quando tiver trabalho e saúde. Escrever é a minha diversão e a minha razão de viver. O meu sentido de vida.
R: Tenho dois. Um deles é Almas Cibernéticas, quase em fase final. O outro comecei em 2017, mas um dia terminarei.
Obrigado por essa oportunidade.
Akio Kimura
São Paulo, 14 de janeiro de 2023.
Mamma Mia! A banda ABBA anuncia o retorno em 2022 destacando o trabalho jornalístico de Daniel Couri
O primeiro livro publicado pela editora Página Nova é o trabalho do jornalista Daniel Couri Made in Suécia: O paraíso pop do ABBA que coincide com o retorno da banda em 2022
Após o imenso sucesso da banda ABBA, eles retornam depois de 40 anos para o lançamento de um novo álbum. Esse retorno coincide com o trabalho de dez anos de pesquisa do jornalista Daniel Couri expresso no livro Made in Suécia: O paraíso pop do ABBA, publicado pela editora Página Nova no ano de 2008. O livro nos mostra que a trajetória do grupo nasceu do sonho de dois casais suecos que decidiram reunir os talentos e romper as barreiras restritas à música pop da época.
O livro reportagem sobre a banda exigiu uma extensa pesquisa sobre o grupo, porém a admiração do autor veio da adolescência quando ele percebeu que a mídia brasileira, nos anos 90, não fazia jus ao sucesso do grupo, levando-o a se interessar cada vez mais pela cultura da Suécia, pelo processo de composição das músicas, bem como pela riqueza artística da banda.
Em seu trabalho, Daniel nos mostra que o ABBA vendeu mais de 350 milhões de discos e esse número cresce até 3 milhões por ano, embora a banda tenha terminado em 1982. O mesmo sucesso teve o espetáculo musical Mamma Mia, que é baseado nas canções do grupo. Desde a estreia em Londres, em 1999, arrecadou mais de 1 bilhão de dólares e é hoje a produção com mais versões em cartaz pelo mundo. O mesmo sucesso obteve a versão para o cinema, estrelada por Meryl Streep em 2008.
Nos anos 90 teve início um revival do ABBA que parece não ter data para terminar. Houve lançamento de diversas coletâneas, vendas abundantes e uma série de homenagens. Bono Vox, Madonna, Kurt Cobain, todos admitiram seu amor pela banda.
A publicação do livro sobre o ABBA em português é algo inédito. Além disso, este livro tem como principal objetivo contar para o público brasileiro a história do grupo falando de aspectos da natureza dos suecos e do showbiz em geral. Ele faz links com outros artistas e com a cena musical da década de 70 até os dias de hoje, além de explicar o motivo pelo qual a banda permanece tão pouco compreendida pelo público brasileiro, apesar de fazer tanto sucesso ao redor do mundo. Uma leitura extremamente necessária e atual, em especial, para os amantes de música e da cultura pop.
Sobre o autor
Daniel Couri é formado em Comunicação Social pelo Centro Universitário de Brasília (UNICEUB nos anos de 2000 — 2006). Trabalhou por mais de um ano no Correio Braziliense e atualmente é roteirista na TV Escola.
Publicou o seu primeiro livro pela editora Página Nova, com o título: Made in Suécia: O paraíso pop do ABBA, no ano de 2008 em português o qual exigiu uma pesquisa profunda sobre a banda, com a proposta de contar para o público brasileiro a história do grupo, falando de aspectos da natureza dos suecos e do showbiz em geral. Por isso, ele faz links com outros artistas e com a cena musical da década de 70 até os dias de hoje, além de explicar o motivo pelo qual a banda permanece tão pouco compreendida pelo público brasileiro, apesar de fazer tanto sucesso mundo afora.
A PORTA
Ela estava ali, a enfrentá-lo num embate épico entre suas lembranças e seu presente. Ele ficou estacado e imóvel, inerte perante as emoções e os pensamentos. Queria ficar do lado de fora, seguro e sozinho. Lá dentro, as luzes pareciam dançar alegres ao movimento das pessoas que andavam alheias à sua presença de um lado ao outro. Precisaria de um esforço sobre-humano para poder bater na madeira. Adornada por uma bela guirlanda, a porta parecia agora que lhe sorria escancaradamente, talvez zombando de sua covarde indecisão.
Há quantos anos não pisava naqueles degraus? A rua mudara de ares. Já não era a mesma de décadas atrás. A porta, porém, impávida, era a mesma que por infindáveis vezes se abriu e fechou por detrás de si. Sabia que ao atravessá-la, teria um encontro com suas lembranças. Isso o perturbava. Por fim, colocou as malas no chão e arrojou os punhos em direção àquela muralha. Foram três toques opacos e secos.
Em segundos, ouviu passos que se aproximavam, então aquele portal se abriu: dois olhos azuis e desgastados pelo tempo contemplaram os dele. Por alguns segundos pareciam não acreditar, mas foram se enchendo de lágrimas saudosas e felizes. Um grande abraço silencioso e materno o acolheu ali mesmo. Enfim, estava de volta.
Curadoria: Lourenço Moura
Birra
Veio o fotógrafo “tirar o retrato”, evento, na época, com hora marcada. A criaturinha, um ano de idade, quando viu a “máquina de tirar retrato” encantou-se e a queria para si. Desejo negado, jogou-se no chão aos berros. Negociação:
Deram uma caneta para a dama. Hoje ela aparece, no “retrato” preto e branco, segurando a prenda.
Numa outra ocasião, a princesa, levada à feira na cidade, viu uma banca de laranjas e queria saborear a fruta no momento. Impossível deixar a menina se lambuzar toda no vestido especial. Imagine a cena! No meio da feira, com a menina expressando seu desapontamento com choros e esperneios!
Depois de tantas que a garota aprontou, porque ainda foram muitas mais, nem lhe deram atenção quando ela gritou e esperneou exigindo justiça em um novo caso. O irmão raspara o olho da boneca nova e a menina engoliu o choro da frustração e perda de causa. Estava domada.
Curadoria: Lourenço Moura
TRAGÉDIA ANUNCIADA
Em uma tarde tranquila de segunda-feira, Andão, como de costume, ia com seu veículo de trabalho cada vez mais pesado, catando recicláveis. Era o fardo que lhe cabia para honrar compromissos de aluguel de uma edícula e alimentação com a esposa e três filhos. Iniciava a sua jornada ao raiar do dia e só retornava ao cair da noite.
Andão, com trinta e dois anos de idade e aparentando ter mais de quarenta, mãos calejadas, mal sabia assinar, sonhava dar uma vida melhor à família. Sua persistência lhe dava ânimo e vigor para puxar diariamente o pesado carrinho. Ao vender o material arrecadado aliviava suas costas e chegava em casa satisfeito com a féria.
Por vezes, sequer algumas moedas tinha para um café na rua, mas não se importava. Em primeiro lugar seus filhos — pensava. Quando a fome apertava, parava em frente a algum bar, onde aguardava a generosidade de algum conhecido para lhe doar um lanche.
Sensato, não abusava da bondade alheia. Revezava suas paradas, olhava para o Céu, sentia-se digno, recompensado, saudável e com coragem para enfrentar esse trabalho.
Como em toda segunda-feira, o carrinho ficou excessivamente lotado mais cedo, mas lá pelas quatro horas, ainda sem ter se alimentado, Andão se dirigia ao comprador de sucatas quando atendeu a uma chamada no velho celular que ganhara em troca do serviço de ajudante de pedreiro, logo ao desembarcar na rodoviária com a esposa prestes a dar à luz pela primeira vez.
Antes mesmo de identificar a ligação e sem dar conta da ladeira íngreme que começou a descer, o carrinho aumentou a velocidade, e por mais que tentava frear no asfalto quente, nem seus tênis tampouco os pedaços de pneus usados para frenagem foram suficientes. A ladeira é travessa de uma avenida movimentada, onde havia começado o rush vespertino de caminhões que vêm do Porto de Santos com destino à capital e ao interior de São Paulo. Andão mal conseguia manter o rumo do carrinho, obrigando-se a soltá-lo para não ser atropelado, no entanto, num piscar de olhos o inevitável aconteceu.
Na avenida trafegava um grupo de motoqueiros e motociclistas em meio aos carros e caminhões que obedeceram naturalmente ao bloqueio do semáforo, enquanto Andão continuava em pânico correndo atrás do carrinho desgovernado que parecia levitar no asfalto.
Além dele, transeuntes também gritavam e gesticulavam em alerta para avisar sobre o perigo iminente, momento em que um motoqueiro arqueado sobre o guidão entrou abruptamente em cena, furando o sinal vermelho em alta velocidade na faixa exclusiva para ônibus, táxis e veículos oficiais.
O carrinho entrou na avenida e incontinenti ao impacto com a moto, todos presenciaram a chegada de policiais em viaturas que perseguiam o insano fujão. Na contramão da legalidade teve a vida ceifada.
Andão, sentindo-se culpado pelo infortúnio, teve, para seu alívio, o reconhecimento oficial que tal tragédia era já coisa anunciada, desde o momento em que o finado decidira ingressar no crime. Veio então o momento dele pensar no comprometido sustento da sua família.
Curadoria: Lourenço Moura
Adaptação de Dom Quixote convida o leitor para conhecer o universo de Cervantes
Concebido pela primeira vez há mais de 400 anos, Dom Quixote é um dos personagens mais queridos e marcantes da história da literatura
Um cavaleiro enlouquecido, seu fiel escudeiro e a eterna luta contra os moinhos de vento. Dom Quixote de La Mancha tem tudo que qualquer amante da literatura pode esperar de um romance perfeito. Afinal, não é por falta de mérito que a obra de Miguel de Cervantes Saavedra é amplamente considerada como um dos melhores livros de todos os tempos.
Nesta adaptação deste clássico atemporal da literatura, um cavaleiro medieval, Dom Quixote, se encontra na Espanha da Idade Moderna após ler inúmeros livros de cavalaria. Desafiado por um mundo repleto de injustiças, o herói sai numa jornada em pleno século XVI com o objetivo de endireitar tudo que, em sua visão, está torto. Salvando donzelas e batalhando por justiça, Dom Quixote e seu fiel escudeiro, Sancho Pança, descobrem que boas intenções não são o suficiente para salvar o mundo nesta obra cômica, desafiadora e extremamente atual no que diz respeito à sua análise da condição humana.
No que diz respeito ao autor desta adaptação, o leitor não poderia esperar por um nome melhor. Uili Bergammín Oz é conhecido por alguns como o “Dom Quixote dos Pampas”, um descendente espiritual direto do herói de Cervantes. Cercado por livros, da mesma forma que seu cavaleiro favorito, é autor de dezenas de contos, crônicas, poemas, novelas e obras infanto-juvenis. Seus escritos já foram adaptados para o cinema, o teatro e outras modalidades das artes visuais.
Com esta adaptação de Dom Quixote, Oz busca oferecer ao público uma porta de entrada para a obra original, O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha. Sem dúvidas seu desafio não é pequeno, mas é o tipo de tarefa que apenas um amante de Dom Quixote estaria apto a assumir. Nesse quesito, não existe ninguém mais capaz que Oz. Dom Quixote de La Mancha promete conquistar os corações daqueles que ainda não tiveram contato com o cavaleiro espanhol. O livro está disponível em mídia física através deste link e em mídia eletrônica aqui.
Felipe Félix publica um estudo científico sobre o projeto Parque Linear com um viés crítico sobre as várzeas do Tietê
Fruto de uma pesquisa acadêmica, Felipe Félix traz um livro riquíssimo em história e críticas ambientais, políticas e sociais.
O geógrafo, pedagogo e matemático Felipe Félix de Alcântara nos surpreende com o lançamento deste livro. Inicialmente, ele foi escrito como um estudo acadêmico desenvolvido por ele durante a faculdade, o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), tendo como objeto de estudo o Rio Tietê e o Projeto do Parque Linear proposto pelo governo de São Paulo na década de 70.
Para o autor, a grande motivação para o desenvolvimento deste projeto de pesquisa e a publicação deste livro, veio da sua experiência pessoal, “é muito difícil escrever sobre algo que você não tem contato. O Rio Tietê fez parte da minha vida, visto que eu morei em bairros próximos e pude ver de perto como o rio influencia a vida das pessoas; desde um alagamento até os transportes e construção de rodovias”, explica Felipe.
O conteúdo possui uma vasta pesquisa sobre o Rio Tietê e traz debates ambientais, sociais e políticos. Em sua pesquisa, Felipe, nos mostra que nos anos 70, o governo de São Paulo, criou o Projeto do Parque Linear, o qual se propunha à recuperação do Rio Tietê. No entanto, isto era apenas uma desculpa do governo para a construção de rodovias.
Além disso, o Estado de São Paulo não previa uma política habitacional para as famílias que viviam às margens do rio. Nas páginas deste livro, o autor traz entrevistas exclusivas com elas e nos mostra como este projeto as afetava diretamente. Aliás, por meio de uma escrita introspectiva, mas objetiva, o autor consegue retratar, exatamente, os sentimentos, as frustrações e os medos que essa população compartilhava.
O texto traz uma linguagem clara e acessível, ao mesmo tempo que o autor transmite, por meio das escolhas de palavras e da pesquisa feita, um tom reflexivo e crítico para a narrativa, que envolve o leitor desde o primeiro capítulo e proporciona, ao final do livro, um legado de história e compreensão sobre a importância do Rio Tietê, visto que a história do Brasil, está intrinsecamente ligada à história das rodovias e dos rios.
Sobre o autor
Felipe Félix de Alcântara é formado em Geografia pelo Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), leciona desde o ano de 2008, tendo sido professor/coordenador pedagógico em cursos pré-vestibulares, leciona em escolas particulares. Atualmente, trabalha como professor de Geografia na rede básica de educação no município de São Paulo. Também é formado em Pedagogia e é graduando em Matemática pela Faculdade Anhanguera. Além disso, é proprietário do canal de educação Ponto Crítico no YouTube e escritor/proprietário do blog Ponto Crítico, o qual escreve artigos sobre educação, política, economia e sociedade.
Fuga
Despertei com o barulho e achei que a cama da minha mãe tivesse quebrado. Corri para socorrê-la e mais um baque veio da porta da cozinha que quase caiu por cima de mim.
Olhos arregalados, fixos na imagem do meu pai à frente: cabelos desgrenhados, camisa com um lado pra fora da calça, baba escorrendo pelo canto da boca, falava com voz rouca e trôpega, soprando no ar um cheiro que eu já conhecia.
Voltei ao quarto encontrando meus irmãos já de pé. Os fiz pular a janela e voltei à porta. Minha mãe, já vindo ao nosso encontro, me empurrou para dentro encostando a porta, numa barreira, enquanto fugíamos. Fomos o mais longe que conseguimos e sentamos embaixo de uma árvore à beira do caminho.
Já acostumada a tantas fugas nas madrugadas, minha mãe não esquecera o cobertor grande que servia para aquecer-nos, a mim e aos meus irmãos durante as noites frias. Acomodamo-nos e tentamos dormir, mas, o medo e a vergonha de sermos flagrados em nossa miséria tão exposta nos impedia de descansar. Esperamos umas duas horas e voltamos.
Em um canto da cozinha, jogado, no seu sono inquieto, meu pai roncava alto. Nós o puxamos pelos braços e o deitamos com cuidado na cama.
— Mãe! Vem dormir com a gente. — chamei baixinho.
Quando acordei, minha mãe mexia nas latas de mantimentos na cozinha. Disfarçou para enxugar uma lágrima.
— Filho, pegue uns galhos de cidreira!
Ela fez o chá e tomamos com duas bolachas para cada um.
— Mãe! E as suas?
— Estão guardadas filho. Vou esperar seu pai acordar.
— Mas ele vai demorar, mãe! Coma logo!
Disfarçando outra vez, ela foi ver o pai no quarto.
Curadoria: Lourenço Moura