História de um gato

De cima do armário da área de serviço, ele olhava pela janela. Não havia passarinhos à vista. Uma brisa leve bagunçou os tons de cinza, branco e mel. Era um gato tranquilo.
Um espirro forte o acordou do transe. Seguiu-se outro.
Aquele indivíduo tinha sumido por dias e voltara assim. Agora, a toda hora eram esses espirros. Que susto! Que frequência mais estridente! Para que tanto exagero…
Da sala uma voz chamou:
― Pedro, o Bob tem água?
― Sim, acabei de colocar. Mas ele tá de onda de novo.
(risos)
Fazia poucos meses que estavam morando todos naquele lugar com o armário na área de serviço. O gato gostava.
E havia algo muito familiar no ar…
― Venha me ajudar com as últimas caixas, sim?
O gato espreguiçou-se e mudou de posição. Outro cochilo se seguiu.
― Não sei o que tem esse gato. Tá muito de boa aqui. Quase não mexe…

No apartamento de baixo, o rapaz alto passou o enrolado de resina para o colega de cabelo longo. A fumaça espessa tinha se formado há tempos e escapava pela janela da área de serviço.
Os dias modorrentos de verão se seguiam com brisa, e sem chuva.

Papillon — parte I

Nariz longo e afilado entre os olhos tristes e derrotados. Ossudas maçãs do rosto reprimindo questões esgotadas. O medo serpenteando-lhe o cérebro. Entre a chávena do café e os cotovelos, um papel branco. A mão esquerda segurando o queixo, enquanto a direita entorpecida pela rotina do trabalho fabril, desenhava um cavalo.

Subitamente, viu o seu colo magro invadido por um cão de pequeno porte. Apesar do seu isolamento na esplanada barulhenta deixou que todo aquele pelo branco se acomodasse nas suas pernas. O cão colocando uma das patas sobre o papel, saudou:

— Olá fantástico homem.

— Fantástico sonhador! O mais importante que faço na vida é olhar garrafas correndo numa passadeira. Sou um ridículo.

— Se tu te achas um ridículo, ridículo serás. Um cavalo?

— Rocinante? Talvez como Dom Quixote, conquiste a Dulcineia que almejo; ela quer-me herói. Queria tanto dançar com ela, mas ela diz que fico melhor a um canto. Nem dançar sei!

— Estás grávido.

— Quê?

— De medo. Não te preocupes; é possível o aborto. Estou aqui eu.

— Um minúsculo Papillon com orelhas de borboleta.

— Cheio de vontade. Serve-te do que tens.

Francisco riu trocista. Papillon arreliado saltou para o chão, revirou os olhos, arreganhou os dentes e lançou-se ferozmente a um dos seus pés. Francisco assustado levantou-se e recuou.

— Não recues homem, reage — rosnou o cão, atacando-lhe alternadamente cada um dos pés. Francisco aprendia a dançar. Adeus vergonha; era urgente salvar os pés.

Um acordeão aumentou a diversão. Viu, entre os espectadores, uma outra Dulcineia dançando. Aceitava-o sem disfarces. Sorriu; os medos eram moinhos de vento.

Papillon? Aplaudia dentro de si!


Curadoria: Lourenço Moura


Photo by Daria Rem from Pexels

Alfazema

Numa escolha que demorou a ser feita, Virgínia Heitor assassinou aquele homem numa encruzilhada. Com a premeditação de uma profissional, programou o convite que lhe faria para ir a um lugar ermo, a respectiva desculpa para o evento, a forma correta do assassinato e o método de disposição do corpo. Fê-lo, já se disse, com a correção a que se exigiu, e foi-se embora, ciente da imensa improbabilidade de alguma vez ser acusada.

No dia seguinte, só depois de instalado o alívio que prometera a si mesma pelo desaparecimento do homem, pois isto dos grandes eventos sempre nos traz um quê de dúvida sobre a sua realidade, Virgínia Heitor fechou os olhos dentro da casa silenciosa e relembrou o momento em que o corpo, esvaído em sangue, parara de se mexer. Ali estava ela, testemunha do início da sua eterna quietude, e não sentiu nada. Estranhou.

Pegou no caderno onde escrevinhava as listas de supermercado e escreveu umas quadras, ― Ai que a alma se fora dela agora que matara! Perdera a humanidade assim tão nova! Viveria na bruma do homicídio daí para a frente! Quão mal se sentia… Tão enorme pecado!

Não, não era verdade. A tentativa de se humanizar com a poesia fora mal sucedida. Era noite, Virgínia Heitor escolheu o shampoo de alfazema, tomou um relaxante banho de água morna e dormiu relaxadamente por oito horas.

 

 

Menino no ônibus

O garoto estava sentado dois bancos na minha frente com uma mulher ao lado que julguei ser sua mãe. Ele estava claramente animado com o “city tour”.

— Que legal! Depois daqui quero ir ao aquário! Olha, um parque de diversões! Vamos pra lá, mãe?

Ao contrário do garoto, a mãe não parecia animada, em vez disso, bem abatida. Aliás, reparei que suas bochechas estavam molhadas. Não era suor, estava um dia frio. Ela chorava. Sim, dava para ver que eram lágrimas escorrendo. O menino, claro, alheio à dor da mãe, continuava falando.

Em algum momento — nem eu sei bem há quanto tempo eu estava observando mãe e filho — a mulher percebeu meu olhar e rapidamente tentou disfarçar o choro, esboçando um sorriso sofrido e baixando a cabeça para limpar o rosto com um dos braços. Tive vontade de estender-lhe minha mão. Oferecer ajuda. Perguntar qual era o problema. No mínimo ser alguém que a ouvisse.

O menino continuava focado no mundo lá fora. Enquanto o ônibus percorria as ruas da cidade o garoto apontava para as construções e para as pessoas que via pela janela. E comentava e falava e ria e prometia muito. Sempre com um sorriso no rosto. A mãe agora forçava um sorriso. Parecia tentar mostrar-se forte e imaculada aos olhos do filho. Estava fazendo um ótimo trabalho, pois o garoto continuava animado.

Peguei rapidamente minha câmera e esperei até que o menino olhasse para mim. Fotografei. Então “caiu-me a ficha”, lembrei-me que minha mãe estava comigo. Fotografei o garoto alheio aos problemas de sua mãe, sem perceber que ele me retratava alheio ao choro da minha mãe sentada ao meu lado.


Curadoria: Lourenço Moura


Foto de Jakob Scholz no Pexels

 

Imaginação

Meu irmão mais novo já estava no berço. Minha irmã mais velha vinha da cozinha com uma caneca de achocolatado e biscoitos. Eu continuei brincando na sala com meus bonecos. Eles estavam em dois grupos lutando para ver quem iria ocupar o lugar na primeira prateleira do rack. A luta já tinha começado de manhã cedo, — Por isso não fui à escola, o que achei muito bom — de manhã houve bombas, armas grandes e pesadas e até helicóptero — Eu gosto de olhar! Ele passa pertinho das casas então nem precisei imitar o barulho dessa vez.

Meu pai chegou do trabalho suado e nervoso. Ele reclamou que precisou ficar no pé do morro desde a tarde, esperando o tiroteio passar. Isso era muito chato já que o jogo do Botafogo que passava na TV estava quase acabando. Enquanto ela assistia, eu continuei com meus bonecos. Foi quando ouvi uma rajada. Olhei pela janela e vi traçantes. Papai fechou logo as cortinas e mandou todo mundo para cama. Minha irmã reclamou alguma coisa e foi para nosso quarto. Eu deixei meus bonecos no chão. Mesmo depois de um dia inteiro, nenhum deles tinha vencido a batalha. Pelo jeito, vou ter que continuar a guerra amanhã.


Curadoria: Lourenço Moura


Image by Wolfgang Eckert from Pixabay

 

Era uma vez uma bailarina

A música sempre teve o dom de a fazer sorrir. “Uma boa melodia pode curar qualquer coisa”, falava Dalva no mesmo instante em que se punha a bailar. Seus braços iam e vinham em movimentos muito conhecidos por ela. Seus pés tocavam o chão de forma tão suave que todos diziam que parecia flutuar. E ela realmente flutuara, nos palcos do mundo inteiro por anos e anos, até à tarde de terça-feira em que precisou fazer uma escolha. Uma sentença muito difícil. Com o coração apertado, decidiu que era hora de abandonar a dança profissional. Seus braços e pernas lhe pediam descanso, e ela foi repousá-los, na rede quadriculada em baixo da velha figueira.

Curadoria: Lourenço Moura


Foto de Kristina Polianskaia no Pexels

A Rainha da ilha

Há mais tempo do que merecia ter envelhecido o relato, vi . Uma rainha de passagem por avenida de minha ilha-cidade. Não a rainha britânica, embora seu cabelo também fossem caracóis anêmicos. Tampouco Ana Bolena, a de Sabá, ou rainhas do naipe. Era, sim, a monarca dum reino ignóbil, cercado por muros raramente transpostos. Assentada sobre trono cuja rota sequência de degraus eram pés de uma esquálida movelaria, a dama, a caráter, exibia fúnebres variações de cinza e marrom em seu traje, bem aos tons da calçada. Cobrindo as anáguas, primoroso recato, profuso retorcido de panos em claro-escuro barroco frustrava os ventos matinais, furiosos na ocasião. O esplendor da senhora, enfim, sobremaneira excedia o dos cavalheiros estirados no mármore, ao redor.  No conjunto, ela se erigia, honrosamente envergada, seu cheiro destilando passantes que se aproximavam, passantes que não. Único traço de falibilidade, como leito dum rio abatido, sua pele denunciava a idade avançada. Raios de sol pincelavam-na, refletindo na fuligem brilhante e no espírito sem brilho.

Perdida em plácidos pensamentos, perscrutava o Leste. Melancólica, num descuido, cedeu-me o olhar, deixando entrever o que via. Dívidas. Decepções. Planos mortos. Palavras de morte. O homem. O medo. A aurora, do berço dourado, falava com a mulher, que comigo falava através de seus olhos.

Pobre coitada, pensei. Seu borborigmo era o amassar de papeis que ela quis escrever, encenar, mas que escaparam das mãos, então estendidas, não para serem beijadas. Não lhe restara papel senão o de mendigar tempo para esquecer.

Mas eu logo esqueceria. Nunca mais veria a distinta figura, apesar de casadas minha rotina e a avenida. Decerto, o estica e encolhe de sua sombra corcunda à luz do sol encontrou a pausa da ampulheta. A mulher partiu. E ninguém se importou se ela pôde esquecer.


Curadoria: Lourenço Moura


Foto de Paul Kerby Genil no Pexels