Thalhej

Eu estava dentro do meu barco navegando várias extensões do rio amazonas, em busca de uma possível nova descoberta do século, estudos e cálculos sobre um pequeno totem que encontrei enquanto escavava nas margens do rio, me trouxeram ao coração da Amazônia, viajei sozinho para tal lugar, colegas me alertaram sobre os perigos que espreitam na floresta, mas minha sede por descoberta me fez ignorar tais avisos.

O artefato tinha a forma de uma cabeça humana e vários tentáculos, que pareciam ser corpos de serpentes, o motivo que deduzi isso era por uma cabeça de serpente estar juntamente ao lado do homem, não sei ao certo, mas essa espere parecia ser uma anaconda. Ao finalmente chegar em terra, peguei minha mochila com suprimentos e comecei a me aventurar sobre o coração da floresta. Andei por dias, chegou ao ponto que achei que havia errado os cálculos, quando por fim decidi voltar e encarar meu fracasso, avistei o que parecia ser um pequeno caminho feito de pedras, pedras essa que já estavam cobertas por musgos e folhas de plantas rasteiras.

Caminhei entre a mata densa que ajudava a esconder o caminha da minha grande descoberta, quando por fim atravessei as plantas que cortavam e perfuravam minha pele, me deparei com o que parecia ser uma cripta, esfomeado pela minha sede de conhecimento, me lancei sobre a grande pedra que obstruía a entrada, utilizei uma grande estaca para fazer uma alavanca e abrir a passagem, fiquei surpreso por tal engenharia arcaica funcionar tão bem. Dentro daquele lugar escuro, utilizei minha lanterna para iluminar o local, a cada passo que eu dava, via escrituras e desenhos nas paredes, não sei dizer ao certo o que estava escrito, mas pelas imagens esculpidas nas pedras, era algo sobre algum tipo de ritual, pois as pessoas estavam adorando um ser idêntico ao do totem que eu carregava.

O violinista

A noite era pesada e escura, apenas os postes de luz espantavam a escuridão, não havia lua e nem estrelas no céu. Enquanto Daniel caminhava pelos becos escuros da cidade de São Paulo, mas algo parecia errado, um calafrio percorria sua espinha a cada passo, como se algo se escondesse nas trevas. Então uma melodia de violino ecoou pelo lugar, o som era melancólico e agudo, prestando um pouco mais de atenção pode se notar que a música era Reminiscence de Olafur Arnald. Daniel ignorou aquilo, e começou a andar mais rápido, mas aquele som o perseguia aonde ele fosse, imediatamente o homem decidiu correr até o som desaparecer. Depois de aumentar seus batimentos cardíacos com aquela corrida repentina, Daniel percebeu que a melodia sumiu já se fazia um tempo. Um sentimento de alívio e uma vontade inexplicável de chorar tomaram seu corpo, respirando um pouco o homem tenta se acalmar, mas o arrepio em sua espinha retorna e a melodia começa novamente muito mais alta e concentrada em um lugar específico desta vez, em um canto coberto pela escuridão. _Quem está aí? _Daniel indaga em voz alta. E da escuridão sai um homem vestido com roupas do médico da peste, esse ser misterioso tocava sua melodia aguda e melancólica, de repente ele para de tocar e solta seu instrumento no chão, e vai em direção a Daniel, que tenta fugir, mas aquele homem era rápido e ambos caem em uma luta corpo a corpo. Socos e chutes foram desferidos por ambos, quem quer que a quele médico da peste seja, ele era bom, mas depois de minutos, o médico da peste cai no chão derrotado. _Você achou mesmo que teria alguma chance contra mim? _Daniel grita com um tom de superioridade. _Eu sei três tipos de lutas diferentes. O homem encara seu adversário derrotado, onde ele permanecia em silêncio. até que a melodia mais agitada e frenética começa a tocar, era a 24 Caprices for Solo Violin de Niccolò Paganini. _Mas como isso é possível? _Daniel questiona, então a música para de repente. _Entendi, uma caixa de som eu imagino, foi assim que você conseguiu me enganar, fingindo ser algo sobrenatural. Até que cordas de violino se enrolam sobre o pescoço de Daniel, ele tenta se livrar das cordas, mas sem sucesso, até que saindo das sombras atrás dele, revela-se que quem estava o enforcando era outro médico da peste. Perdendo a consciência a última coisa que aquele homem vê é seu oponente levantando e tirando um bisturi do seu sobretudo. Abrindo a barrida do homem em um corte limpo, o médico da peste retira órgão por órgão, colocando em uma sacola plástica e guardando em um cooler. ele desconectava cada órgão do corpo com maestria, como se já tivesse feito isso várias vezes. por fim, eles guardam os instrumentos cirúrgicos e deixam um cartão de visitas escrito “O violinista” e no verso do cartão um desenho da máscara da peste, depois disso eles saem com um deles carregando o cooler, enquanto o outro toca uma música no violino.

O Caos Social ou Subindo no Caixote

Tenho acompanha a algum tempo o trabalho do Café com o Escritor atravéz das redes sociais e do Sandro Bier que dá ótimas orientações a autores iniciantes e independentes.
Tenho um livro públicado em uma plataforma de auto publicação que acredito ser um bom livro, porem mal trabalhado e outro pronto para públicação, que gostaria de trabalhar melhor.

Caminho Sem Heróis

Num mundo onde líderes comandavam seus impérios, o nome do Raposo era sussurrado com reverência. Sua figura solitária era envolta em mistérios, seus feitos narrados em murmúrios ao redor de fogueiras e nos corações daqueles que buscavam justiça. Enquanto isso, além das fronteiras conhecidas, existia uma nação inimiga, os Alermaques, motivados por um desejo insaciável de poder e domínio sobre terras estrangeiras.
Era dito que o Raposo era mais do que um simples homem; ele era uma força da natureza, um defensor da paz. Sua força era intensa, uma chama de determinação que ardia mais forte do que qualquer fogo, enquanto liderava seus soldados para o combate. Sob seu comando, os soldados se preparavam não apenas para lutar por si mesmos, mas também pela preservação da paz.
Quando finalmente chegaram ao campo de batalha, encontraram os Alermaques esperando por eles, uma massa sombria e ameaçadora em meio ao caos da guerra. O forte odor da terra ensanguentada misturava-se com o som dos tambores de guerra dos Alermaques, criando uma atmosfera de tensão. As fileiras dos Alermaques eram extensas, sua determinação inabalável, mas os soldados do Raposo estavam decididos a enfrentar o desafio, marchando e cantando não apenas para a vitória, mas também para a paz.
A batalha que se seguiu foi feroz, uma sinfonia de aço contra aço e gritos de guerra ecoando pelos campos de batalha. Os Raposos observaram os Alermaques lutando e ganhando, e em um ato de desespero, o capitão ordenou a retirada. Os Raposos testemunharam a queda de camaradas enquanto buscavam refúgio na cidade mais próxima. À noite, se refugiaram em um hospital abandonado, sem comida e energia. Seu capitão decidiu atacar novamente com poucos soldados, em um ataque surpresa. Eles jamais imaginariam que atacariam novamente. Avançaram pela floresta, onde o frio e a névoa os envolviam com um abraço gelado. Parecia que os galhos das árvores sussurravam, mas não desistiriam. Estavam lutando pelas gerações futuras.
Na escuridão impiedosa, sua única fonte de luz eram duas lanternas, que mal iluminavam ao redor. Não eram desumanos e não se sentiam bem em ferir outros seres, mas se não o fizessem, o mundo estaria nas mãos de pessoas ruins. Seu capitão costumava dizer a seguinte frase para acalmá-los: Às vezes, é preciso construir o nosso futuro através de lutas
De repente, ouviram um estrondo: bombas estavam caindo de todas as direções. Um homem , representante dos Alermaques, apareceu fazendo o símbolo da facção. Suas mãos brilhavam, e ao seu lado surgiram inúmeros soldados. Destruíram sua fonte de luz. Em um gesto de desespero, os raposos se reuniram em círculo, invocando um poder ancestral com as mãos estendidas para os céus. Em um espetáculo de destruição e renascimento, as bombas caíram do céu consumindo a terra em chamas. Os raposos destruíram qualquer vida restante lá, transformando a paisagem em um deserto árido e insalubre. Por um milagre, emerge do solo uma flor e com ela tras um novo seculo.

Para isso?

Minha cara

Escrevo-lhe para saber como estás.

Lembra-se da última vez em que estivemos juntos?
Você estava bem, sentindo-se muito livre, assim como eu.

Percebia o ar em nossas narinas, ar que quase tocávamos, tal a reciprocidade de vida que ele tinha conosco na ocasião em que tivemos momentos tocantes.

Tocante com o que parecia que ouvíamos na ocasião. Um som que nos rondava e me sabia como uma trilha sonora para nossas vidas. Tudo parecia colocado em uma pauta que líamos juntos, nota por nota, silêncio por silêncio. Tecendo reciprocamente a tez de cada um.
Caminhamos tranquilamente ao longo dos lagos.
Ouvíamos e víamos toda a vida ao redor.

E o céu? Ah, o céu!
Aquele que hoje sabemos não é azul – sendo apenas uma questão de comprimento de onda mais curto -, mas que nos leva muito longe, quando nos abraça tornando a luz mais doce e envolvente, naquele momento em que nos sentíamos. E era azul.

Andar por ali foi daqueles instantes que preenchem uma existência. Mas não o andar só, e sim andar com quem é parte de si, que até dá a impressão der ter saído de seu próprio ser.
Andar sobre uma grama e folhagens com flores nos dando os mais inebriantes aromas.
Andar sem buscar endereço certo, apenas ir.

Com aquele destemor que só uma boa companhia pode nos dar.
O saber que pode-se ir em frente porque um ao outro bastam-se.
Elucidam-se, contorcem-se, enredam-se.
Nem digo que fossemos unha e carne, porque mais carne com carne. Carne que sentia tudo em volta, como a brisa que acariciava os corpos.

E aquele momento em que a carne sentia a ausência de algo interno.
Preencher a carne nem era tão imprescindível assim. E eu só observei seu movimento, como se ouvíssemos algo. E eu livre, solto. E você livre, solta. E você era só ouvidos. Mas, não só para mim. Apenas à alguns sibilos que pairavam.

Por isso tudo, depois de tanto tempo, faço-lhe apenas uma pergunta:
Se já tinhas tudo, porque entre tantas frutas fostes escolher e comer exatamente a maçã, Eva?

Do seu, A.

CARTA PARA CORA

CARTA PARA CORA

Cora,
te escrevo da terra vermelha dos dias,
onde os rios correm apressados,
mas as palavras, como tuas,
preferem demorar-se nos quintais.

Fizeste do chão batido um livro,
da pedra rude, um abrigo de versos,
e das miudezas da vida,
um relicário de eternidade.

Diz-me, Cora,
como foi semear poesia
entre tachos de doce,
bordar esperança no pano gasto do tempo,
sem nunca temer as rugas no rosto
que só a vida bem vivida sabe dar?

Tua pena, mais forte que o fado,
não escreveu para salões dourados,
mas para as mãos de quem planta,
de quem fia e desfia os dias,
tecendo histórias à luz do fogão.

E eu, aprendiz tardio de teus silêncios,
te escrevo para dizer
que tua casa de portas velhas
ainda abriga sonhos novos,
e que teus versos,
colhidos com as mãos da infância,
florescem em cada esquina
onde uma mulher ousa existir
sem pedir licença ao tempo.

Com gratidão,
um viajante dos teus versos.

O teu esforço

Naquele tempo, eu ainda não entendia que todo o Homem nasce escravo de algo ou de alguém. Crescia segura no teu apoio, sem perceber que, sem querer, também te acorrentava.
Não sabia como analisar as regras do jogo a que a vida nos sujeita. Perdia-me a olhar as tuas mãos cansadas, que, no pano, corriam e se entregavam ao ponto combinado entre a linha e a agulha da máquina de costura. Não percebia que essas mãos carregavam histórias mais significativas do que toda a História que eu aprendia na escola.
Entregavas-te livremente à servidão para que eu pudesse entregar-me à fantasia e tivesse o direito de sonhar. Permitiste a minha ingenuidade para que minha infância fosse fértil.
Eu não entendia que o duplo sentido nos teus ditados populares e conselhos era um desafio, um incentivo para que eu lesse a meninice que nunca tiveste. Naquela hora calma, quando, já pronta para dormir, lançava um último olhar à tua figura sentada, não reparava que te preparavas para enfrentar um longo e silencioso serão. Ignorava que já tinhas ultrapassado todos os limites das tarefas que alguém pode suportar. Durante a noite, acordava levemente com o som da máquina de costura e adormecia de novo, tranquila, com a tua imagem no andar de baixo.
Conhecia o movimento das tuas pernas inchadas pelo cansaço. Os pés empurravam o pedal da máquina, a correia de cabedal girava, e a roda fazia a agulha penetrar o tecido com um lamento metálico. Sabia que sentirias, por pouco tempo, o descanso da tua cama e que serias a primeira a interromper o silêncio da casa, embrulhada no teu xaile madrugador
.Eu, curiosa como sempre, quando apanhava a máquina a descansar, mal chegando com os pés aos pedais, tentava experimentar a sensação de como seria estar no teu lugar.
Com toda a paciência, ensinaste-me e eu aprendi, mas nunca consegui fazer como tu, com a mesma disciplina com que te sujeitavas.
Hoje sei que viraste muitas vezes a tua existência do avesso para que eu me atrevesse a crescer. Nem sequer reparei na tua idade avançada, quando, mais tarde, me pedias:
— Enfia a linha na agulha. Já me cansa a vista…

Trinta anos após a tua partida, continuo a amar-te.

Gratidão, avó.

Carta para Ana, pelo seu legado histórico.

Ana,

Vou falar de mulher para mulher, afinal, nos tornamos íntimas embora exista uma distância cronológica considerável entre nós.

Você marcou a minha vida e de muitas gerações antes da minha. A mesma dor que gerou em você uma marca pra sempre, é sentida por muitas mulheres até hoje, mas a melhor marca sua foi encontrar a cura, e é sobre isso que eu quero falar.

Eu me inspiro em você para solução de muitas outras coisas na vida, e isto faz de você uma mulher inesquecível. O seu legado perpetua, seu nome tem uma marca na vida de cada mulher que, um dia, teve o coração ferido, os olhos embaçados pelas lágrimas e a voz embaraçada pelo grito atravessado na garganta.

Você se sentiu preterida pelo seu marido, esquecida por Deus, ignorada por muitos, foi confundida como uma histérica, sem noção e até com uma alcoólatra, repudiada e indesejada em certos lugares, e foi ali que encontrou a cura, e criou referências.

Você guardava uma dor silenciosa, e esse seu legado de fé na oração secreta, ecoou lá no céu, gerando o profeta Samuel. E com isto, Ana, você nos ensinou que há momentos em que não cabem intermediários, é conexão direta entre você e Deus. Reclamar gera desesperança, abala a autoconfiança, pode ampliar a ferida e até aumentar a dor.

Também aprendemos com você, Ana, que toda dor tem um nome, muitas vezes disfarçado nas justificativas alheatórias, como fuga de uma realidade cruel, incompreendida.

Por isto nesta carta, eu quero em nome de todas as mulheres, dizer o quanto você é admirada pelo seu exemplo de fé, resiliência, e confiança no poder de Deus, para transformar pranto em alegrias.

Vou me lembrar de você todas as vezes que doer em mim, a falta de algo que traga significado na vida, e me lembrar, que esse vazio tem um nome, que só é conhecido por você e Deus, e só Ele é capaz de preencher quando for procurado no secreto.

Por fim, você nos ensinou que toda mulher carrega uma mensagem de amor que vai além se si mesma.

Com afeto.

Regina Célia da Silva Duarte.

Contato: @pensebemvaalem

Escrevo-lhe agora

Paris, 15 de abril de 1956.

Prezada colega,

Tive que viajar às pressas e não pude me despedir, avisaram-me que mamãe teve uma moléstia séria, tomei o primeiro trem para Paris no dia seguinte.

Escrevo-lhe agora para dar notícias e agradecer o chá, também a conversa sincera sobre o meu novo livro. Os conselhos serão seguidos, asseguro-lhe, especialmente aquele em que a senhora falou, entre uma mordida e outra do petit four feito pela senhorita Macy, que “quando reescrevemos, o mais importante é cortar o que não faz parte da história”. E a senhora sorriu ao dizer que era desnecessário falar “delicioso” para aquele petit four.

Os dias em Londres foram edificantes para mim, as aulas de literatura inglesa em Cambridge abriram portas, porém, nada foi mais significativo do que o seu parecer de como devo conduzir a investigação nas próximas edições da tetralogia. Marcou-me deveras o palpite em que a senhora apontou a detetive como uma pessoa bastante passional, sanguinária, e pouco técnica. Para ser sincera, não havia percebido o quanto é importante esta personagem não agir por vaidade, mas por lógica.

No entanto, diante de tudo que foi compartilhado, com ternura e generosidade, como se a senhora fosse a minha professora de literatura, preciso dizer-lhe que guardarei a frase “como nada será conforme o esperado – teremos, ao menos, nos divertido enquanto planejávamos”. Isto é incrível! O que me preocupa é que a senhora falou rindo em meio a uma tosse e outra; tosse, esta, repetida várias vezes em nossos encontros. Espero que já tenha chamado o doutor Edward para avaliar o quadro.

Pois bem, querida Agatha, preciso finalizar a carta, mamãe me chama e está bastante rabugenta desde o dia em que soube da publicação do meu livro no Brasil, terei que viajar para lá em breve. Não havia lhe comentando, na ocasião, mas recebi o convite de uma editora do sul do Brasil, ela se interessou pelo segundo livro da tetralogia. Assim que tudo melhorar, voltarei a Londres. Mattew deve ir comigo, ficou curioso para conhecer a senhora quando eu disse que tomei chá com uma nova amiga e também escritora, porém famosa, chamada Agatha Christie. Ele arregalou os olhos e disse-me: preciso, portanto, levar “O misterioso caso de Styles” para ela autografar.

Até breve, nobre colega.

C.L.

Mulheres em mim

Querida bisavó,
Escrevo-lhe com um lenço à mão. Estou emotiva hoje. Será que podemos nos comunicar através desta carta? Espero que minhas palavras possam alcançá-la no espaço-tempo, de alguma forma, onde estiver.
Faltou tão pouco para nos conhecermos pessoalmente, não é!? Sinto muito por não estar aí antes de partires dessa existência. Me perdoa, antecipei a minha chegada o quanto pude, mas só consegui nascer dois dias após a sua partida. Mas pude senti-la do ventre materno. As emoções da mamãe estavam intensas naquele dia. De certa maneira, a mamãe nos apresentou um tempo depois, ao contar histórias e mostrar fotos da senhora.
Nos momentos em que estou no sítio sinto-me mais conectada com a senhora e a vovó. Contemplo as árvores que plantaram; às vezes até converso com as borboletas e os beija-flores. A vovó dizia: “Quer borboletas no seu jardim? Cuide das flores, que as borboletas e os beija-flores virão por conta própria”. Sabia que era uma orientação também para a vida. Acho que a vovó gostaria de saber que o sítio vem sendo conservado e valorizado pela mamãe, com amor. Quando encontrar a vovó, por favor, conta isso para ela!?
Aliás, lembra das mudas de bananeira e de camélia que a senhora trouxe de uma comunidade vizinha? Ainda estamos colhendo e desfrutando das bananas, cultivadas por ti. A propósito, diz para a vovó que aumentamos a produção das bananeiras por aqui; ela falava que seria desafiador devido à geada, e realmente foi, mas insistimos em plantar várias mudas em lugares diferentes, eis que cresceram em abundância. Quanto aos pés de camélia que a vovó plantou, permanecem aqui. Eu e a mamãe costumamos sentar na sombra dessas árvores para ler um livro, com os pés descalços na grama. É agradável sentir o frescor natural dali.
Bisa, quero dizer que sou grata pelo legado que a senhora e a vovó deixaram e por tê-las comigo, fazendo parte das mulheres da minha ancestralidade. Agradeço especialmente à herança de aspecto invisível, de bem maior, que transcende gerações. Não tenho dúvidas de que carrego em mim a força e a coragem das duas, e, claro, da mamãe. Reconheço as dores e os obstáculos que superaram para que eu pudesse ter a minha vida. Eu as vejo e as honro! Todas tem o seu lugar no meu coração.
Ah, as lágrimas que derramei hoje foram de respeito, de gratidão e da saudade que sinto. Despeço-me por ora. Eu te amo.
Com afeto, sua bisneta.